Umbanda, organização e funcionamento

Toda escola espiritualista impõe um período iniciático cuja extensão é variável, porém, encerra o princípio de subordinação à uma disciplina rigorosa e de elevado alcance moral, que leva o neófito a viver um regime de aperfeiçoamento e evolução espiritual. A primeira fase iniciativa imposta pela Umbanda, é rigorosa, estabelece condição da continuidade ou não do candidato aos mistérios da doutrina secreta. O candidato começa por desenvolver a atenção, a meditação, a concentração mental. Em seguida, à proporção que se desenvolve, procura conhecer os efeitos da abstração, o valor da prece, e a prática de exercícios respiratórios seguindo as disposições rítmicas. Esta primeira pela exercitação constante de uma rigorosa higiene moral e corporal, e de uma dietética que inclui o regime vegetariano racional e selecionado; o cultivo dos mais puros e elevados ideais espiritualistas; altruísmo, a abnegação, a fraternidade, a solidariedade para com os seres irracionais e as plantas, e os minerais; a renúncia ao efêmero; o estudo das letras sagradas que formam a ciência secreta, e os evangelhos que constituem os preceitos da lei moral do “amai-vos uns aos outros e a Deus sobre todas as coisas.” Existem dois sistemas básicos: a Magia, que visa o estudo e o domínio completo bem como o condicionamento das vidas na matéria, do corpo físico, do corpo astral e do corpo mental; e o Evangelho, que se destina a despertar o Eu Superior, dando-lhe as regras para o acesso na jornada evolucional para os planos divinos.

Pela prática dos dois sistemas apontados, o umbandista procura atingir o seu máximo objetivo – a realização crística em seu espírito – que se levará ao conhecimento perfeito e a manipulação das forças ocultas da natureza, dispondo de meios supranormais. Segundo Paulo Gomes de Oliveira, a doutrina do setenário representa o método de disciplina moral mais eficaz e puro, para obtenção do progresso espiritual, que resulta na união com o Pai, e por conseguinte, na obtenção de faculdades supranormais. Sendo o campo experimental da manipulação das forças ocultas de suma importância e onde os perigos surgem a cada experiência, o período iniciático é o caminho de obtenção pela fé e pela prece, pela meditação e pelo estudo, pela higiene do corpo e da moral, de um estado mental culto e ativo onde as emoções estejam fundamentadas tão somente na divindade.

Todo neófito tem que conquistar por si mesmo, por sua vontade inquebrável, a sua tríplice purificação: física-mental-moral, para que não venha a quebrar a lei de harmonia, lesando o seu próximo por pensamentos, palavras e ações.

A proporção que renuncia completa e integralmente os prazeres do álcool, dos entorpecentes, da fornicação, da luxúria, do jogo, todos os vícios e prazeres que se escondem sob aspectos sutis do sectarismo, começa a surgir o homem moral, e com ele as disposições para compreensão de uma vida superior. O umbandista tem que ser em verdade, perfeito e completo; ao fim da sua longa iniciação, quando na plenitude de seus poderes supranormais, torna-se no legítimo símbolo da vitória da espiritualidade sobre a matéria, e o esplendor da fé sobre as sombras da ignorância. É a fase do triunfo do Eu Superior sobre o atavismo animal, causa das enfermidades da natureza inferior do homem, e que são uma evidente desgraça nos dias deste fim de século.

Alcançada a vitória do Eu Superior sobre os atavismos do campo animal, o iniciado, começa a penetrar o valor das vibrações pelos mantras musicados, passando ao campo experimental da manipulação das forças ocultas da natureza, a tarefa que se lhe impõe desde o auspicioso momento é aquela de despertar os centros de força do corpo astral, os chacras, estudando-lhes os movimentos e a maneira pela qual atuam no corpo mental e também nos centros de força do corpo físico-químico. Dois novos perigos se apresentam: a morte e a loucura. Eis porque é necessário o caminho de aprendizagem ou de iniciação gradual, sistemática e paciente que resultará no extermínio de diabólicos vícios que deturpam e enfraquecem o corpo físico-químico e mancham e aviltam o corpo anímico.

 UMBANDA SAGRADA E DIVINA

O corpo anímico tem que permanecer puro para conhecer e realizar nos momentos precisos a transfusão de vida, elaborada pela força vital. Temos diante de nós os mais desoladores quadros em matéria de patologia médica. Um grupo de doenças é por ela classificado por sem matéria porque as causas são obscuras; mas podemos ter certeza, que todas elas são radicadas em sua origem, nos desequilíbrios da força vital que opera no campo da sensibilidade do corpo anímico astral.

Não poderá haver mediunidade curadora nenhuma outra sem que o corpo anímico esteja em perfeita tonalidade vital, pois nele, residem as propriedades de detenção, transformação e emissão da vitalidade solar, cujo poder curativo dos seus eflúvios para grande número de doenças é sem a menor dúvida, extraordinário, revestindo-se por que ver com decantado magnetismo telúrico ou terrestre, e ainda que repudiado pela ciência oficial, que é acanhada e imprecisa em seus limitadíssimos domínios, constitui a mais excelente terapêutica, porque emana da força vital, oceano da vida e das formas. A Umbanda, leva o iniciado ao estudo da mediunidade, classificando-a em três grupos conforme já tivemos oportunidade de estudar anteriormente.

 KIMBANDA

KIA

 DIHAMBA-NGANGA-KUSAKA

 Dihamba está constituída pelos médiuns: Videntes, auditivos, psicógrafos e falantes. É por ela que chegam as revelações dos planos superiores que se transformam em matéria de estudos. Podemos dizer que a ordem em apreço representa a pedra angular da doutrina secreta no tocante ao seu estudo e desenvolvimento. Dihamba que significa vulgarmente fumaça e também chama, toma o sentido de radiação, luz etérea, e a sua coroa é o sol no sentido espiritual. Dessa primeira ordem mediúnica dependem as outras duas uma vez que representa a fonte de sustento superior espiritual. Nganga que quer dizer o que está ligado à ação astral, o que é veículo do astral, comporta os médiuns de: bilocação, materialização e desmaterialização, transporte de objetos, cirurgias astrais e vivificação de flores e plantas. É uma ordem respeitável pelos fenômenos que produz e seus membros devem revestir-se de muita responsabilidade. Sua coroa é a lua também no sentido espiritual da doutrina secreta. Sua ação rege a terceira ordem que é formada por elementos afins dada a natureza da ação mediúnica.

A terceira ordem é: Kusaka, o que cura, o que reabilita e restaura a tonalidade vital dos corpos. A terceira ordem aplica-se a magia dos elementos e atende a todas as necessidades dos seres. É uma fonte de consolações e de esperanças que excede o entendimento em virtude dos métodos que emprega para facilitar a circulação da caridade descida do reino de Deus por misericórdia. Seu campo de sustento é o plano cósmico, a matéria anímica, hiperfísica. As forças sutis com que trabalha, age e reage, exige aos médiuns uma vida pautada pela temperança em todos os sentidos. O plano de suas cogitações é o chamado das almas e sua coroa é a natureza.

A Umbanda, como temos afirmado, não usa o chamado espiritismo da mesma forma com que o fazem outras escolas porque, o intercâmbio e relações com os desencarnados se representa um valor muitíssimo elevado, todavia não é o precípuo da sua doutrina que ensina o despertar do homem invisível com todos os seus atributos. Permanecer tão somente na ordem dos fenômenos espirituais seria acomodar-se com a evolução de terceiros ao mesmo tempo em que abdicar da própria evolução. Seria permanecer ligado a alma grupal e jamais caminhar no sentido de possuir e viver as virtudes da alma individualizada. Assim sendo, a Umbanda destaca os fenômenos anímicos que são estudados e empregados como veículo de evolução pela ação e pelo estudo aplicado no sentido da melhoria do eu.

A primeira ordem mediúnica é a mesma que em tempos passados reunia os profetas. É por ela que se desenvolve a sua doutrina que passa pela tradição e prosperidade.

Hoje em dia já se tornou uma necessidade em vista do que a experiência indicou, de escrever-se sobre a ciência secreta vivida pela escola umbandista. Podemos observar sem nenhuma dificuldade a multiplicação das casas umbandistas. Algumas centenas de umbandistas já estão interessados no estudo da matéria, a proporção que as casas que ostentavam o título de umbandistas vão ficando a margem para receberem a classificação de Candomblé e Canjerê. Isto acontece porque a maioria julga que o assunto tão elevado, penetra-se sem estudos. Julgam que a magia é a prática de uma série infinita de atos infantis e algumas vezes fetichistas, e que o fenômeno espírita propriamente dito é abrir a boca e falar revestindo a linguagem de palavras repassadas de ternura ou de conhecimentos limitados, para que aqueles que os ouvem não tenham dúvidas de estarem diante de um médium pelo qual se processa o fenômeno.

Via de regra tais casas não passam de locais de péssimas diversões e que se escondem discretamente sob o estandarte de uma doutrina respeitável e digna. Se o folclore indígena e africano dá uma nota pitoresca ao recinto, em verdade, não vejo de que forma descobrir qualquer indício de espiritualidade e compenetração da responsabilidade em relação ao Eu.

A doutrina umbandista não oferece facilidades, tampouco está ao alcance de qualquer indivíduo, daí a necessidade de iniciação lenta e gradativa. É preciso um estágio iniciador para poder ser compreendida pela maioria dos seres que infelizmente permaneceram afastados das veredas espiritualistas. A iniciação a que aludimos não implica na reclusão do ser, mas na sua rigorosa e completa liberdade de ação no ambiente em que vive. A iniciação compreende o estudo, a meditação sobre tudo quanto é superior e que promova a elevação moral do homem, ao mesmo tempo em que a capacita a penetrar o setenário alma para poder utilizar com sabedoria o corpo físico e seus sentidos. A proporção que se reveste de responsabilidade compreende o encadeamento dos atos e fatos que o cercam a cada instante. O estudo lhe é por condição essencial, e a matéria é fornecida pela fonte inesgotável da doutrina que vence os milênios, a doutrina secreta.

Aquela segunda ordem mediúnica fornece aos iniciados de segundo grau material mais direto para a compreensão dos elementos e estados da natureza, evidenciando as leis que regulam as formas e os fluídos. A terceira ordem é uma fonte regeneradora das energias dispendidas quer no sentido físico, quer no sentido hiperfísico. Todos os trabalhos levados a efeito nos templos umbandistas obedecem a ação e a ordem.

Em todos os templos umbandistas existem disposições para os trabalhos, para que tenham lugar sem tropeços e ruídos exteriores. A formação da cadeia astral é constituída por elementos mediúnicos das três ordens.

As ordens mediúnicas funcionam em íntima relação umas com as outras, e os seus elementos devem cultivar as virtudes da fé, esperança e caridade, por intermédio do Evangelho de Jesus que é a maior revelação da misericórdia de Deus, e o amor que domina pela harmonia espiritual.

O estudo da magia ensina a ação que deverá ser desenvolvida no tempo e no espaço, realizando no quaternário a obra a que se destinou: sabedoria.

Por intermédio dos espíritos com os quais mantém relações e intercâmbio, procura através do estudo e da meditação compreender o código da lei kármica, seguindo uma linha de conduta orientadora no mundo de experimentações.

Organizado por Tateto Nepanji

Nossa contribuição à religiosidade afro-brasileira na Argentina

Na década de 1990 a Argentina – assim como o Brasil e boa parte da América Latina – passava por mudanças importantes no sentido do fortalecimento de sua recém reinaugurada democracia. Esse processo contou com a participação ativa da população daquele país, que juntamente à sua classe política buscava definir o modelo de nação que dominaria as décadas por vir. Nesse processo, também os grupos praticantes de religiões afro-brasileiras, particularmente religiosos umbandistas, organizaram-se como Sociedade Civil politicamente atuante e realizaram eventos visando ordenar suas práticas, publicizar sua religiosidade, quebrar estigmas amplamente presentes em um país de larga tradição europeizada e católica (sobre isso, cabe citar que ainda no presente a Constituição da República Argentina assegura o lugar do catolicismo como religião oficial do governo e defende a imigração de europeus). Tateto Nepanji foi, então, convidado como militante, autoridade e referência afro-religiosa, para auxiliar com seus conhecimentos à luta dos irmãos argentinos, tendo igualmente sido homenageado, em 1992, com o certificado que segue aqui reproduzido.

Certificado

Festa de santos na vizinhança: terreiros de Candomblé na cidade de Belo Horizonte

Observação: Este texto é um artigo científico, apresentado em agosto de 2014 no IV Congresso Internacional do Núcleo de Estudos das Américas da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, por Guilherme Nogueira, Tata Mub’nzazi, ogan de nossa casa. Guilherme é Mestre em Ciências Sociais e Doutorando em Sociologia pela Universidade de Brasília. O texto completo, publicado nos anais do evento, pode ser acessado e baixado em formato .pdf neste link.

Resumo: Busco com o presente artigo apresentar elementos que auxiliem a entender as formas como a religiosidade e a tradição afro-brasileira existem na cidade de Belo Horizonte. Para tanto, dentre outras atividades, participei da festa do nkinse Nsunbu, senhor das chagas e das curas, no terreiro Nzo Kuna Nkosi, que segue a tradição do Candomblé Angola, de raiz banto. Busquei descrever o funcionamento da festa e, em sua análise, a partir dos trabalhos de Callois e Simmel, elucidar elementos que apontam para a maneira como os candomblecistas entendem a sua própria religiosidade. Tentei demonstrar que tal compreensão, aliada à capacidade que os terreiros possuem de absorver elementos e se adaptar a seu mundo externo, levam-lhes a preservar suas tradições e a sacralidade de seus cultos.

Palavras-chave: Candomblé, nkinses, modernidade.

Distribuição de cestas de alimentos

No ano de 2005, 301 terreiros de candomblé e casas de umbanda de oito estados da Federação, localizados em diversas cidades, foram contemplados com a ação de Distribuição de Cestas Alimentares. Essa ação, que é uma Política Pública que fazia parte do então Programa Fome Zero do Governo Federal, coordenada pelo Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome (MDS), objetivava auxiliar ao combate à fome e tornava a Comunidade de Terreiro em agente de Inclusão Social. Seu papel era o de ser um meio para a erradicação da pobreza e aumento da auto estima na região/comunidade do entorno do terreiro.

A partir de uma articulação da então Secretaria de Politicas de Promoção da Igualdade Racial da Presidência da República – SEPPIR/PR, MDS, alguns órgãos municipais e estaduais ligados à Promoção da Igualdade Racial, e também da Sociedade Civil organizada, foram feitas indicações de casas de Umbanda e Terreiros de Candomblé para esse recebimento. A Cabana Senhora da Glória – Nzo Kuna Nkos’i, foi uma das indicadas, e até os dias de hoje vem contribuindo com essa ação – hoje coordenada por outros programas do governo federal – junto à comunidade do entorno de sua sede, beneficiando várias famílias. São quarenta e oito cestas alimentares distribuídas mensalmente. Com essas é feito um rodizio de famílias, para que um maior número se beneficie da ação.

A Cabana Senhora da Gloria – Nzo Kuna Nkos’i entende ser necessário apoiar ações do poder público e auxiliar seus programas na condição de articuladora de Políticas Públicas, sem com isso manter vínculos partidários. A construção de uma sociedade mais justa e igualitária é o objetivo maior da luta do povo afrodescendente – este mesmo que tem a responsabilidade e incumbência de guardar os cultos a Nkinsis e Orixás no Brasil. A esta luta se soma, desde sempre, a nossa casa.

Curiosidades sobre os Nkinsis

Você sabia…

  • Que Unjira é o grande agente mágico da natureza, trabalhando sob as ordens dos Nkinsis, combatendo as larvas negativas que envolvem a humanidade?
  • Que Nkos’i é o Nkinsi encarregado de combater as demandas íntimas de cada um, abrindo os caminhos para os seres humanos em seu cotidiano, sendo também o Deus do aço, ferro, estradas, militares e tudo o que representa perigo?
  • Que Katendê é o Deus das folhas, raízes e tudo o que representa a farmacopéia, pois, este Nkinsi é o encarregado de fornecer as ervas para a cura dos males físicos como também absorver através do sistema ecológico as influências negativas que vem através da mudança do tempo?
  • Que Mutakalambo é o Deus da Caça, tendo sob sua responsabilidade o elemento “ar” a procura das almas a serem encaminhadas a um mundo melhor, segundo o merecimento de cada um?
  • Que Nsumbo, é o Deus da varíola, atuando positivamente nas doenças de pele, como também é o encarregado de cura-las? Existem mais dois Nkinsis irmãos com as mesmas características: Ktembu (Tempo), o menino na adolescência, Tingongo o velho alquebrado, mas inteligente como os demais, consciente e seguro do seu poder.
  • Que Nzazi é o Deus da justiça, da inteligência, dos intelectuais, da sabedoria? Seu domínio está sob as grandes pedreiras. Em alguns casos podem ser evocados para vencer demandas, desde que estas estejam alicerçadas pelas mãos justiceiras da lei.
  • Que Angorô é o mensageiro de Nzazi? Deus do Arco-Íris. Nkinsi encarregado de trazer as águas do céu para a terra e levá-la de volta no momento oportuno. Esse Nkinsi é o intermediário entre o céu e a terra, formando a aliança da sabedoria e do amor universal.
  • Que Vunji é a apresentação infantil. O símbolo da inocência? Vunji é o Nkinsi que sempre aparece para trazer paz e calma as Muzenzas.
  • Que Angurucemanvula, é o Nkinsi das ventanias e deusa dos mortos (Nvumbi), encarregada de dar proteção aos espíritos desencarnados, desde que estes tenham cumprido fielmente seus deveres, para que os mesmos não caiam em mãos de espíritos inferiores tentando desencaminhá-los, atraindo-os para os mundos inferiores.
  • Que Dangualunda é a deusa do amor e da sabedoria, da beleza, meiga e carinhosa? Sua cor preferida é o amarelo ouro, sendo perfeitamente justificada esta preferência, pois ela domina também as riquezas do subsolo, sendo válida a afirmação de que Dangualunda é a protetora de Minas Gerais.
  • Que Kaiari é a deusa das águas salgadas? É a mãe pura e perfeita. Domina a prata e as pérolas, tendo também predileção pelo azul e branco.
  • Que Nzumba é a deusa de todas as águas, a avó carinhosa e amorosa, domina as ruínas e mangues, fornece energia fluídica para eliminar as larvas negativas de nossos pensamentos? Está sempre disposta a embalar e acalentar seus filhos, dando lhes energia para viver.
  • Que Kas’ute, juntamente com Lembaranganga representam a pureza? Justificando pelo uso da cor branca.

Formação de fiéis e aperfeiçoamento para o Candomblé

O tema que nos propomos apresentar é o da formação e do aperfeiçoamento dos fiéis. Trataremos aqui do médium iniciado e não do fiel que apenas freqüenta as casas de Candomblé, pois são aos iniciados que estão entregues os destinos de nossa religião. Denomino aqui o Candomblé como religião por ser ele seguido por grande parte dos habitantes de nosso país.

Sabemos que por falta de conhecimento muitos elementos que militam em nossa religião cometem erros por vezes infantis, e que refletem diretamente em seus zeladores, conseqüentemente, naqueles bem intencionados que lutam dia e noite em favor da religião que nos foi legada pelos nossos ancestrais e trazidos de tão longínquas terras africanas, conforme nos deram notícias nossos antecedentes e antecessores. Aliás, eles nos têm prestado inúmeros benefícios, quer na palavra meiga de um Preto Velho, ou nos eflúvios bendito de nossos Nkinsis.

Torna-se necessário que examinemos as questões dentro de um terreiro. Neste local, é necessário que haja uma conscientização do que sejam equilíbrio moral, tolerância e amor ao próximo, armas poderosas a fim de nos aperfeiçoar e, dessa forma, criarmos em nosso redor, chamas positivas de bem estar e que automaticamente transmitiremos aos nossos irmãos de fé, iniciados.

Dentro de um terreiro as inúmeras funções que desempenhamos com amor e carinho nos levarão um dia, diante de Nzambi, com a certeza da missão cumprida.

Somos sempre procurados, em nossos terreiros por fiéis que desejam saber se determinado irmão está demandando com outro irmão ou com ele próprio. Esquecem ou esqueceram estes irmãos que a demanda é tão ruim para quem ganha como para quem perde. Na realidade ambos saem perdendo. O que é necessário é que cada um procure melhorar seus atos e pensamentos. Demanda é um termo que deveríamos abolir. Nunca deveria ter chegado a existir. Destacamos a palavra “demanda” porque ela é muitíssimo usada nos meios mediúnicos. Mas a série de formação errônea para o mal intencionado não para por aí.

Não será a demanda uma forma de inferioridade de quem a provoca e de quem a aceita? Seria melhor que não existisse esse termo e nem o seu conceito fosse difundido.

O melhor seria que pudéssemos substituí-lo por aprendizado correto.

Vamos treinar o perdão e pregar a não violência, pois, demanda é uma provocação. Quando deixar de existir os terreiros que aceitam demandas, teremos, por certo, maior número de irmãos e fiéis.

Após a injeção de ânimo poderemos nos preparar para a caminhada de paz e do progresso inoculado nas almas dos homens desviados da senda do bem comum.

A mediunidade a serviço da demanda não só é perigosa como não consta das Leis de Nzambi (Deus). É sabido que um médium galga gradativamente seu estágio de formação. Este médium, ao transpor os umbrais de nossa religião, traz consigo uma responsabilidade muito grande, qual seja a de respeitar e transmitir aos iniciantes seus ensinamentos. Como fazer isto se não houver uma formação e um aperfeiçoamento adequado?

O médium ou elemento iniciante deve saber pautar os seus atos e perdoar quando necessário. Existem inúmeros médiuns espalhados pelo Brasil, mas infelizmente grande maioria carece de ensinamentos mais apurados, de orientação mais adequada para não causar inúmeros acontecimentos desagradáveis. Vimos formando médiuns, por muitos anos, utilizando-nos da divulgação dos próprios benefícios obtidos e assim arrebanhando inúmeros supostos Umbandistas ou Candomblecistas que foram agregando valores sem que houvesse o conhecimento mais apurado desse saber e muitas vezes, a própria falta de escrúpulos os fizeram deturpar os nossos objetivos, colocando-nos em ridículo diante da opinião pública.

É nosso dever seguir em frente, lutando pela qualidade e não pela quantidade.

Precisamos separar o joio do trigo.

Agora meus irmãos e amigos, a parte mais terrível da formação sem base e que ocorre de um modo geral em alguns Candomblés é aquela em que alguns zeladores, com a vista voltada aos seus interesses particulares, arvoram-se em verdadeiros donos da sabedoria e da verdade, criando novos médiuns em idênticas condições, predominando a falta de conhecimentos, numa verdadeira bola de neve que cresce sempre. Transformarão ou pretendem transformar, ou mesmo não se importam em transformar a religião numa verdadeira fábrica para fazer médiuns. Não existe preparação, exame e consciência. Existe apenas o fator econômico dando ordens. Esquecem estes zeladores que a hora da tapeação passou. Os nossos atos não passam pelos nossos mentores, que são os Nkinsis, despercebidos. Os Nkinsis estão atentos àqueles que se esquecem de que o amor ao próximo é princípio básico de todas as crenças religiosas.

Se ao Tata Kambondo cabe a proteção do terreiro, ao zelador cabe a responsabilidade de ser o conselheiro espiritual, não podendo fugir nunca à responsabilidade que assumiu.

O trabalho de base e o discernimento do certo e do errado.

O verdadeiro médium deve desconhecer o ódio e sua cartilha deve ser a caridade.

Quanto ao aperfeiçoamento só nos resta dizer que o médium consegue através da leitura de mestres bem escolhidos, os melhores ensinamentos, que poderão e deverão ser aplicados a sua vida prática.

É preciso que nós, responsáveis pela formação de médiuns, sejamos sinceros e que façamos nossas obrigações dentro do rito de nossa fé, com amor e abnegação.

Devemos formar fiéis conscientes de seus deveres, caridosos em seus atos e verdadeiros líderes de seus grupos, sem o que não poderá substituir seus zeladores em nossa religião.

Seremos nós, se assim não o fizermos os próprios culpados.

Tateto Nepanji

Candomblé: uma dádiva afro-brasileira

Quando falamos de Candomblé, estamos falando de uma religião brasileira com raízes africanas milenares que muito tem contribuído para a manutenção da fé de grande parte do povo brasileiro e que chegou até nós através dos nossos ancestrais, cuja beleza e realidade não se pode contestar.

O Candomblé oferece aos participantes um visual coreográfico de esplendida beleza, quer nas suas vestimentas como em seu ritual.

A contribuição que o Candomblé tem dado ao nosso país vai desde a manutenção da fé religiosa, como também em divisas econômicas. Imaginem que para o Candomblé são vendidas inúmeras coisas que geram impostos, o que é uma contribuição muito, muito valiosa, pois o país, como os demais, vive de arrecadações. E isto o Candomblé oferece, não só com os produtos de fabricação brasileira, bem como os produtos para o nosso uso. Sem falar na exportação que já se faz para Portugal, Uruguai, Argentina, Paraguai etc.

Gerando impostos de importação e exportação, certamente estamos gerando empregos, e gerando empregos, estamos contribuindo para o pão de cada dia entre inúmeros irmãos brasileiros e estrangeiros.

E a fé?

A fé, quando a temos ordenadamente sem fanatismo, produz tranqüilidade e a tranqüilidade é uma das coisas mais importantes para o ser humano, o, que temos que conservar para nosso bem estar.

O mais importante, é que o Candomblé, que foi outrora tanto perseguido e difamado, é hoje o ponto de apoio de inúmeras pessoas de todas as camadas sociais. Poderíamos dizer que o Candomblé é uma religião de ricos e pobres, sem distinção da cor da pele, embora muitos digam que o Candomblé é religião de negros, o que não está de todo errado, pois nossos Nkinsis/Orixás são negros pelas suas raízes e brancos como é a cor de Lemba/Oxalá, pelas suas essências, que fortificam e nos conduzem para o bem comum.

O Candomblé possui saudações e linguajar próprio. Possui suas cores adequadas que servem para identificar cada Nkinsi/Orixá, de acordo com sua nação.

Quando os cultuadores da nação Angola/Kongo saúdam ao Nkinsi Nkosi, eles o fazem na certeza de que aquele elemento da natureza movimentará suas forças para a defesa de seus filhos dentro de seus merecimentos. O mesmo ocorre quando se canta para todos os Nkinsis, pois, através dos cânticos e rezas vai se criando uma atmosfera de paz e tranqüilidade geral.

Tem sido uma preocupação constante dos dirigentes do Candomblé criar, para seus seguidores e frequentadores, segurança viva para os dias presentes e futuros. O Candomblé nunca foi e nunca será uma religião de discórdia, conforme afirmam alguns fanáticos de algumas seitas evangélicas mal orientadas, e que vivem a nos combater através de informações que lhes são passadas por elementos que não cumpriram devidamente os ensinamentos e preceitos que lhes foram passados pelos seus zeladores de Santo. A insatisfação tomou conta de suas mentes doentias, faltando com a  caridade tão apregoada em suas reuniões, oferecendo a salvação como se fossem eles o verdadeiro Messias.

A salvação se dará um dia, mas para isto teremos que pautar nossos atos dignamente, com a família, com a sociedade e com a religião, independentemente de qual seja ela.

O Grande Arquiteto do Universo, ao definir papéis nesse plano, não determinou que a salvação se daria através de uma Bíblia na mão, com colares ou contas no pescoço, como é o nosso caso, e muito menos ajoelhado em uma igreja. A salvação se dará sim, através de atos que dignifiquem a nossa alma e consciência, e, o nosso procedimento deve ser correto e pacífico, pois somente com muito amor conseguiremos a verdadeira união de todos os candomblecistas e de todas as religiões.

A União, o trabalho, com o respaldo do amor, será sem dúvida nenhuma, o maior Gunzo/Axé que em português quer dizer força, e somente pela força representada pela união de todos, conseguiremos colocar o Candomblé em seu devido lugar.

Tateto Nepanji