O tempo segue presente!

A Cabana Senhora da Glória foi fundada em 1961 no bairro Concórdia, em BH. Àquele momento, duas pessoas, seguidas por toda uma comunidade, davam corpo à casa: o fundador, Nelson Mateus Nogueira, e sua esposa e cofundadora do centro afrorreligioso, Maria de Lourdes Nogueira. Sempre acompanhada/o de seu filho, Nilo Sérgio Nogueira, então criança, pai Nelson e mãe Maria mantinham vivas na Cabana as reminiscências da Cabula capixaba, em que pai Nelson fora iniciado ainda criança, no Espírito Santo; as tradições dos antigos Cultos às Almas mineiros, já desde muito antes parte da cultura afrorreligiosa local; e a Umbanda, então religião central do terreiro, hoje reconhecido como o mais antigo templo dessa religião em funcionamento na cidade – embora não mais no bairro Concórdia.

Em paralelo às religiões revividas na Cabana Senhora da Glória, uma outra antiga tradição afrorreligiosa brasileira acompanhava a família: aquela das benzedeiras, transmitida em linhagem feminina[1] e praticada por mãe Maria de Lourdes, que a aprendeu de sua mãe biológica em Sete Lagoas/MG, sua cidade de origem. Filhas e filhos de santo foram curados por nossa mãe em vários momentos, bem como toda a sua família de sangue foi criada baixo folhas de guiné e arruda, copos d’água e rezas de muita fé.

Com o passar da década de 1960, a Cabana Senhora da Glória, por orientação de seu mentor espiritual Pai Guiné de Aruanda, começaria a absorver os ritos e tradições do Candomblé Angola Moxicongo, trazido à casa por Mameto Oloiá, do terreiro do Bate Folhinha de Salvador, e sua família de santo – agora, parte da nossa também. Nesse processo, pai Nelson se tornou Tateto Nepanji e zelador candomblecista do terreiro, agora também chamado de Nzo Kuna Nkos’i. E mãe Maria se tornou a mãe pequena da casa, recebendo a djina de Mutunji. Posteriormente, em justiça por todo o seu trabalho de cofundadora e de matriarca organizadora da família religiosa, Mutunji recebeu o título de Mameto. Não chegou a ser zeladora da casa, mas a história desta se forjou em sua liderança. Nossa Cabana não se erigiu – como nunca é o caso com as religiões afro-brasileiras – apenas pelas mãos de nosso pai. Sem Mameto Mutunji não haveria a Cabana Senhora da Glória – Nzo Kuna Nkos’i, ou pelo menos não como a conhecemos.

Neste ano de 2026, em que a casa completou seus 65 anos de existência, missão espiritual, guarda de tradições negras e trabalho pelo amor ao próximo, dentre outros, essa era de sua fundação, forjada pelo ferro e pela espada de Nkos’i, sob a guarda do tempo e a sabedoria de Pai Guiné de Aruanda, passa por sua maior transformação. Em junho, como se sabe, Tateto Nepanji se juntou à ancestralidade e agora nos orienta desde outro plano. E neste mês de setembro, na quarta-feira dia 09, exatos 3 meses e 3 dias após a passagem dele, Mameto Mutunji foi acompanhá-lo na Aruanda eterna.

A enterramos na quinta-feira dia 10. O cortejo afrorreligioso acompanhando seu corpo foi formado por seus filho e netos, tatas do terreiro, pelo kambondo de seu inquice, Tatetu Kitembu, por antigas/os filhas e filhos de santo da Cabana, e pela nova geração de filhas do terreiro, que agora carregam a importante missão de manter viva e pulsante a tradição que nossa mãe ajudou a construir e liderar, sem buscar nenhuma publicidade com isso.

É de certa forma agridoce imaginar o trabalho que aguarda essas novas filhas, visto que pouco conheceram nossa grande Mameto, já acamada e com a saúde fragilizada em seus últimos anos de uma vida quase centenária – partiu com 97 anos. Ao que a filha do tempo segue seu caminho espiritual, o tempo terreno das novas filhas segue sem a presença dessa grande senhora, mãe de nossa tradição. Não obstante, tal como Kitembo é Rei de Angola e não pode ser contido, o dinamismo e a reexistência de nossa casa seguirão vivos e pulsantes com a nova geração, sob as bençãos de mãe Mutunji – e  de pai Nepanji – e sob a continuada guia de Pai Guiné de Aruanda, nesta terra pindorâmica de seu Girassol, seu Sete Penas e todas e todos caboclos.

Nossa casa já estava de luto desde junho por nosso pai e agora prepara o mukondo de nossa mãe. Ao publicizarmos seu falecimento por meio desta nota, externamos nosso agradecimento à nossa família extendida de santo, às amigas e aos amigos que nos ligaram neste triste momento para nós que ficamos, indicando seus pêsames.

A ancestralidade, por sua vez, está em festa por ter a mãe agora junto ao pai no mundo invisível. E nós celebraremos seus exemplos e vidas sempre com a cabeça ao chão a Tatetu Kitembu, rogando pelas bençãos de nossa eterna Mameto e agradecidas/os pelo tempo que tivemos e em que pudemos aprender com ela.

Mãe Mutunji presente!

Mãe Mutunji presente!

[1] Desconhecemos por completo as origens da tradição benzedeira herdada de sua mãe por nossa cofundadora, mas assumimos com segurança ser uma escola feminina, visto saber-se ser esta a realidade da tradição das rezadeiras/benzedeiras no sudeste brasileiro, particularmente em Minas Gerais.

Homenagem a Kitembo e à Mameto Mutunji

Com apoio das recentes tecnologias de inteligência artificial, o filho de nossa casa, muzenza Lembafuneji, preparou, neste 10 de agosto, essa imagem em homenagem à nossa mais do que cinquentenária mãe Mutunji.

Com idade muito avançada e já com a saúde frágil, mãe Mutunji já não mais participa presencialmente das atividades de nossa casa. Sua energia, bem como Tateto Kitembu, seu santo de cabeça, seguem presentes em nossa casa, mesmo em meio ao luto atual pela passagem de nosso pai de santo – que, aliás, era seu companheiro de toda a vida.

Junto a Lembafuneji, saudamos ao tempo no dia de hoje e levamos nossas cabeças ao chão, em um pedido de bençãos à nossa querida mais velha, Mameto Mutunji.

Luto: nosso pai, agora é ancestral

Comunicamos a toda a nossa família extendida, filhas, filhos e filhes da Cabana Senhora da Glória – Nzo Kuna Nkos’i, bem como a todas as pessoas amigas da casa, o falecimento de nosso pai de santo e fundador, Tateto Nepanji. Ele viveu uma vida longa e plena, dedicada à ancestralidade, seu louvor e trabalho, nas linguagens da Cabula, da Umbanda e do Candomblé. Aos 98 anos de idade, neste dia 06 de junho de 2026, fez sua passagem à sua próxima morada, tornando-se mais um ancestral a zelar por nossa família desde o mundo invisível.

Nós que ficamos neste plano, seguimos com o legado de nosso tateto e a missão de manter aberta, viva e pulsante a nossa Cabana. Fica a tristeza pela ausência e a saudade de nosso mais velho, também a gratidão por ter com ele aprendido e cohabitado neste mundo.

Com a passagem de nosso pai, a nossa casa inicia um período de luto de 1 ano. Nesse intervalo o Candomblé será pausado, para retornar em 2027, já após a transição para a nossa próxima liderança, a suceder pai Nepanji como zelador/a da casa.

O Senhor dos Caminhos e nossas decisões

Le mambuko Pambu N’jila.

Muitas vezes somos arguidos por consulentes, muzenzas e até mesmo adeptos de outros processos religiosos (cristãos, em maioria), sobre o “que” e o “porque” de determinada situação que estamos vivenciando custar a se resolver. Várias respostas podem ser dadas para esse questionamento e todas, sem exceção, nos levam a pensar sobre o “além” que rege nossa vida terrena.

Ledo engano.

Toda e qualquer situação que estejamos passando no plano terreno é fruto das nossas escolhas e exercício do livre arbítrio. Ninguém é responsável pelos e por nossos atos, a não ser nós mesmos. Nzambi, na sua infinita bondade e misericórdia, jamais nos desampara e muito menos nos abandona, mas respeita nossas decisões e escolhas, sempre nos orientando para o caminho do bem, até que estejamos prontos para o entendimento do “porque”.

Tateto Nepanji, zelador da nossa casa “Cabana Senhora da Glória – Nzo Kuna Nkos’i”, juntamente com Mameto Mutunji, mãe pequena dessa casa, e, meus pais pelos laços de sangue e família terrena, sempre me disseram: “faça o bem, mesmo que isso te custe o sono, porque a fatura chega para ser quitada em algum momento.” “Plantou e fez o bem ao semelhante, colherá o bem para sí mesmo.” Nessa linha, a recíproca também é verdadeira.

É bem mais fácil atribuirmos ao outro o revés de nossa vida do que olharmos nossas atitudes em relação ao outro ou a nós mesmos. O Candomblé, enquanto meio para o culto à ancestralidade e aos nkins’is, é, no meu juízo de entendimento, berço para a renovação de nossa energia, física e mental, mas jamais seria o próprio nkins’i ou muito menos o ancestral. Como local, é onde tomamos nosso banho de ervas sagradas e refletimos sobre nossa vida na fé ancestral que escolhemos, nos iniciamos ou somos confirmados, caso dos Tatas e das Makotas. A porta é única e ao cruzá-la, seja em uma ou outra casa, estamos conscientes que o nkins’i nos escolheu.

O tempo nos ensina isso. O tempo nos cobrará isso. O que é do nkins’i é dele. O Senhor dos Caminhos nos mostra, se assim pedirmos, qual passos seguir, mas, nunca interfere na decisão que tomarmos, mesmo porque, ela é nossa e não dele.

Tata Kis’ange

Conselho Municipal de Promoção da Igualdade Racial – Belo Horizonte

No sábado, 12/07/2025, a Cabana Senhora da Glória – Nzo Kuna Nkos’i participou, como candidata, da eleição para o  7º Mandato do Conselho Municipal de Promoção da Igualdade Racial – Belo Horizonte (COMPIR-BH), referente ao biênio 2025-2027. Com alegria comunicamos nossa eleição como entidade representante da sociedade civil, mais especificamente no seguimento de entidades religiosas, na vaga destinada à instuição representante do Candomblé.

Nossa eleição para o COMPIR-BH ratifica nossa histórica luta por direitos ao povo negro e afrorreligioso belorizontino, desde meados do século passado encampada por nosso Tateto N’panji e por nossa Mameto Mutunji. Nosso pai e nossa mãe fundador/a seguem vivo/a, o que não obsta o fato de sua luta já ter sido herdada por Tata Kis’ange e Tata Mub’Nzazi, que serão nossos representantes no Conselho, bem como por todas as filhas e todos os filhos da Cabana.

Fundada em 13 de maio de 1961, a Cabana Senhora da Glória – Nzo Kuna Nkos’i é o mais antigo terreiro afrorreligioso em funcionamento em Belo Horizonte. Iniciou suas atividades como centro umbandista e, em 1964, pelas mãos de Mameto Oloiá, do terreiro do Bate Folhinha, de Salvador, assentou os fundamentos do Candomblé, tornando-se a primeira casa da tradição Angola Moxicongo em Minas Gerais. Foi em reconhecimento a essa história que a Comissão Eleitoral do 7º Processo de Eleição dos(as) Representantes das Entidades não governamentais e da Sociedade Civil elegeu, por meio de votação democrática, nossa casa como integrante do COMPIR-BH.

A publicação no Diário Oficial do Município, que torna público e oficial o resultado da eleição, data de 18/07/2025 e pode ser acessada a partir do seguinte link: https://dom-web.pbh.gov.br/visualizacao/ato/465326

Mestre da Cultura Popular

No último dia 29 de junho de 2024, nosso Tatetu N’panji foi homenageado com a premiação de Mestre da Cultura Popular de Belo Horizonte. Em sua sexta edição, o prêmio é entregue pela prefeitura da cidade às pessoas que, conforme compreende o poder público, são/foram “responsáveis pela transmissão e perpetuação de saberes, celebrações e formas de expressão que compõem o patrimônio cultural” de Belo Horizonte.

O prêmio é um reconhecimento do poder público de algo que sabemos ser verdade desde sempre, que é a importância de nosso pai de santo para a afrorreligiosidade da nossa cidade. Pai N’panji chegou a BH em meados do século XX, por orientação da Preta Velha mãe Felisbina, com a incumbência de ser um líder espiritual, com terreiro aberto por aqui. Já era iniciado na Cabula desde 1938 e praticava a Umbanda no Rio de Janeiro desde 1944. Foi o primeiro filho do Candomblé Angola Moxicongo, raiz do terreiro Bate Folha de Salvador, iniciado em Minas Gerais. E segue desde suas iniciações como um guardião e transmissor desses conhecimentos, com respeito e valorização a seus ritos e segredos. Iniciou centenas de pessoas no Candomblé e outras tantas se desenvolveram na Umbanda na Cabana Senhora da Glória. Seu mestrado nos saberes afro-diaspóricos é longevo.

Se por um lado o prêmio e título de Mestre da Cultura Popular recebido por Tatetu N’panji é simbólico e um bonito reconhecimento de sua história de vida, é também, por outro lado, uma equiparação de seu conhecimento àquele de um mestre acadêmico. Com efeito, a noção por trás do título de Mestre da Cultura Popular surge na Universidade de Brasília, a partir dos trabalhos do antropólogo José Jorge de Carvalho. Este professor defende não haver hierarquia de saberes entre um professor universitário e um mestre popular. Pelo contrário, milita pela presença de mestres populares, como professores, nas salas de aulas das universidades brasileiras, levando a estudantes o conhecimento que é seu, outrora, em um passado não muito distante, tratado como objeto de pesquisa, apropriado por pesquisadores, em geral homens brancos, e lecionado na Academia como tal. Ainda que o crédito fosse dado por esses pesquisadores às pessoas das comunidades pesquisadas, não há nada mais autêntico e justo do que reconhecer que as/es/os guardiã/es dos saberes são, elas/eles próprias/es/os, as pessoas que com mais legitimidade podem falar de suas tradições.

Pai N’panji, no que tange à educação formal, apenas cursou a escola até a quarta série do ensino primário (hoje quinto ano do ensino fundamental). No entanto, é um mestre apto a lecionar em salas de aulas universitárias, participar de bancas de defesas de mestrado e contribuir à educação formal de novas gerações – as mesmas que há dezenas de anos contribui para a formação espiritual.

Humildemente, saudamos a grandiosidade de nosso Tatetu e elevamos nossas orações pelo reconhecimento e justiça a todas, todes e todos mestres populares que o Brasil (e o mundo!) têm. Que sejam reconhecidas/es/os e sigam contribuindo ao mundo, assim como nosso pai de santo.

Mazelele, Tatetu N’panji!

Luto pela passagem de Sindaloji

Nossa filha e irmã, Sindaloji, de um dos primeiros barcos de Tateto Nepanji, cumpriu o seu papel e missão na Terra e partiu para o plano celestial. Filha zelosa de Mameto Dangualunda, sempre honrou a Cabana Senhora da Glória – Nzo Kuna Nkos’i e nossa família. Sua lembrança sempre será presente. Em sua memória, a nossa casa guardará o devido luto candomblecista, seguindo às nossas tradições e à orientação dos mentores espirituais da casa.

Em respeito e consideração à família biológica da Sindaloji, compartilhamos o convite de sua missa católica de 7o dia.