Mensagem às filhas e filhos sobre a quarentena – 04 de maio de 2020

Meus filhos e irmãos,

Aqui é Pai Nepanji quem fala.

Nesse momento de dificuldades que o mundo inteiro vem passando, considero importante levar uma palavra até vocês para dizer que, dentro do pouco conhecimento que tenho, estou pedindo ao pai maior e a todos os inquices que intercedam por cada um de nós.

Infelizmente muito ainda acontecerá e, como previ no jogo de búzios que fiz no inicio do ano, esse é um ano de ajustes necessários ao equilíbrio espiritual.

Orientei que todos tivessem muito cuidado com as falas e ações, pois a cobrança acontecerá.

Ainda criança recebi uma determinação da espiritualidade com uma missão a ser seguida. Venho cumprindo com humildade e paciência o que foi determinado.

Desde a minha iniciação na Cabula, Umbanda e o Candomblé, venho aprendendo todos os dias algo novo.

Passamos por situações em nossa casa que era necessário passar e hoje já vivemos uma nova etapa de crescimento. Tudo estava previsto e por isso me dirijo a vocês com paciência e tranqüilidade.

Não me esqueço de nenhum dos meus filhos, e, dentro do aprendizado necessário para o crescimento, vocês também me ensinam muito.

Temos que passar pelas etapas de nossa vida, mas sempre, uma de cada vez.

Hoje o mal que atormenta o mundo é esse vírus que iguala a todos. Mas, a natureza é sábia, e, ontem fiz um jogo onde a determinação foi que nada seja feito na casa antes da reabertura dos trabalhos, e, que cada um de vocês cumpra as determinações da terra.

Nós, do candomblé, estamos junto da natureza o tempo todo.

Vamos respeitar o gigante que ela é, pois desconhecemos o poder e alcance da sua força.

O assentamento do inquice e inquiciane de cada um de vocês é essa natureza que rege suas cabeças.

Nzambi Kilaia Aderesê.

Que N’Zambi a receba em festa, Makota Valdina

Foi com muito pesar que nossa família recebeu no dia de hoje a notícia da passagem de nossa parente Makota Zimewanga, a querida Makota Valdina.

Grande sábia e importante ativista pelos direitos das pessoas negras, ávida defensora da afrorreligiosa, Makota Valdina, juntamente à também saudosa mãe Beata de Iemanjá, foi autora do conceito “racismo religioso” (veja mais sobre o tema aqui), que muito bem expressa a violência que nossas comunidades sofrem desde a diáspora africana para as Américas. Muito com ela aprendemos e boa parte de nossa força de luta e resistência foi por ela inspirada. Particularmente, que “o Candomblé é a universidade do povo negro” e que este não descende de escravos, mas de “seres humanos que foram escravizados”.

Muito agradecemos seus ensinamentos, Makota Valdina! Que N’Zambi a receba em festa e que sua luz e força siga nos ensinando desde o panteão dos ancestrais!

Homenagem

A família Senhora da Glória presta sua homenagem a mãe Stella de Oxossi, falecida no dia 27 de dezembro de 2018. Mãe Stella, além de grande Iyalorixá de um dos terreiros mais famosos do Brasil, foi enfermeira, escritora emblemática com assento na Cadeira n.33 da Academia Baiana de Letras e grande ativista pelos direitos de afrorreligiosas/os. Sua militância impactou a forma como o Candomblé é entendido como religião no presente, pauta de notada importância histórica no Brasil.

Nossa comunidade sente por sua passagem e homenageia e agradece por sua vida e história. Oferecemos nossas condolências à família do Ilê Axé Opô Afonjá. Que a vida de mãe Stella nos inspire hoje e sempre em nossa vivência candomblecista e humana.

Salve, mãe Stella de Oxossi! Le’mambuko Mutakalambô!

A questão da laicidade do Estado brasileiro e as religiões afro-brasileiras

Observação: Este texto é um artigo científico, publicado em 2018 no periódico acadêmico Revista Calundu, por Nilo Nogueira (Tata Kis’ange) e Guilherme Nogueira (Tata Mub’Nzazi). A temática é de grande interesse para as religiões afro-brasileiras e na luta contra o racismo religioso.
O texto completo pode ser acessado e baixado em formato .pdf neste link.
A Revista Calundu, com este e outros textos, pode ser acessada neste link.

Debatemos neste texto, a partir de pesquisa sócio-histórica e de um olhar desde dentro dos Calundus, a questão da laicidade do Estado brasileiro, problematizando algumas consequências da ausência de neutralidade do poder público sobre as comunidades de terreiro. Recuperamos como marco teórico os conceitos de secularismo e laicidade, movendo-nos, em seguida, a demonstrar como a ideia de Estado laico, historicamente, não se aplica ao Brasil. O tema, como debate, é campo de disputa não exclusivo no Brasil para a Sociologia da Religião, e torna-se mais complexo quando exposto junto a elementos que consubstanciam o cenário de racismo religioso brasileiro.

Seu Cangira deixa a Gira girar: A Cabula capixaba e seus vestígios em Minas Gerais

Observação: Este texto é um artigo científico, publicado em 2017 no periódico acadêmico Revista Calundu, por Guilherme Nogueira (Tata Mub’Nzazi) e Nilo Nogueira (Tata Kis’ange).
O texto completo pode ser acessado e baixado em formato .pdf neste link.
A Revista Calundu, com este e outros textos, pode ser acessada neste link.

Buscamos promover com o presente artigo um resgate da Cabula, religião afro-capixaba, antiga – a primeira a ganhar nome próprio a partir dos heterogêneos Calundus coloniais – e de culto aparentemente descontinuado no Brasil hodierno. Assim, a partir de bibliografia especializada e de informações coletadas com um religioso iniciado na Cabula – o pai de santo capixaba Tateto Nepanji, buscamos descrever os principais aspectos de seu culto e crença. Em seguida, apresentamos alguns vestígios de práticas cabulistas ainda presentes em rituais angoleiros praticados em Minas Gerais, onde pai Nepanji se radica. Os vestígios da Cabula apontam ainda para a força e continuidade de uma linguagem ritual angoleira, que sobrevive no Brasil desde os tempos dos primeiros Calundus coloniais.

Provérbios de Pai Nepanji

Vez por outro Pai Nepanji nos brinda com provérbios de sua própria autoria. Neste post (que atualizamos continuamente) apresentamos alguns deles.

“Deus te dê em dobro tudo que me queira de bem. Mais feliz tú serás não mal querendo a ninguém.”

“Ter um filho é uma graça recebida. Educá-lo é uma benção.”

“O bom pai e a boa mãe dão bons exemplos e bons conselhos a seus filhos.”

 

Nosso pesar

Manifestamos nosso pesar pelo falecimento da Iyalorixá Beata de Iemanjá, da família do terreiro carioca Ilê Omiojuaro, em 27/05/2017. Mãe Beata foi uma grande inspiração para todos nós, não só por sua dádiva como mãe de santo, mas também por toda a sua militância política e luta por vida melhores para o povo de santo e todo o povo negro brasileiro.

A família da Cabana Senhora da Glória – Nzo Kuna Nkos’i pede a Nzambi que lhe receba de braços abertos!

O tempo e seu caráter relacional: ensaio de um aprendizado com um preto velho

Observação: Este texto é um artigo científico, apresentado em dezembro de 2016 na I Jornada de Estudos Negros da Universidade de Brasília, por Guilherme Nogueira, Tata Mub’nzazi – Kambondo Mabaia de nossa casa. Guilherme é Mestre em Ciências Sociais e Doutorando em Sociologia pela Universidade de Brasília. O texto completo, publicado nos anais do evento, pode ser acessado e baixado em formato .pdf neste link.

Resumo: Este ensaio debate o tempo como categoria, comparando sua configuração moderna com a afrorreligiosa. A modernidade, escorada em seu ideário progressista e em sua intrínseca crença de superioridade como arranjo social, apaga o passado para falar do futuro e entende que a história se constrói do zero, com ações no presente. Esta forma de ver o tempo difere em muito da compreensão tradicional centro-africana, ou – revisitada no Brasil da colonialidade – afro-ameríndio-religiosa. É isso que nos ensina Pai Guiné de Aruanda, preto-velho da Umbanda, versado no culto aos inquices congo-angolanos e figura central na chegada do Candomblé Angola às Minas Gerais (Brasil). O tempo, conforme explica, é uma relação inexorável entre passado, presente e futuro, que, cultuado como a divindade Ktembu, representa o mundo. A perda desta compreensão pela modernidade está na raiz de seu desequilíbrio e de todo o sofrimento que enseja.
Palavras-chave: Tempo, Candomblé, Ktembu.

Mameto Mutunji e as mulheres negras do Brasil

Mulheres negras do Brasil

Bem como todo lugar, o Brasil é feito de pessoas e suas histórias. Algumas pessoas, particularmente, passam para a história do Brasil, seja por suas ações, ou pelo que representam. Nisso, as mulheres negras brasileiras certamente merecem destaque, tanto por suas ações quanto por tudo mais. Seu papel para a construção da sociedade brasileira é inegável, embora o racismo e o machismo reinantes teimem em negá-lo.

Dentre histórias de mulheres negras brasileiras e sua contribuição para o país, destaca-se nossa própria Mameto Mutunji, lembrada por Schuma Schumaher e Érico Vital Brazil em seu livro didático “Mulheres Negras do Brasil” (Editora SENAC, Rio de Janeiro). A reprodução em destaque nesse post é a página 152 (edição publicada em 2006), em que, a esquerda, no alto, encontra-se a foto de Mameto Mutunji.

Para além do orgulho que temos de nossa Mameto e de todas as mulheres negras, recomendamos aqui a leitura desse livro. Conhecimento nunca é prejudicial e, no que tange a essa temática específica, é central para a compreensão do Brasil e para que se faça justiça sobre a forma como essa mesma segue ocorrendo.

Saiba que a escassez não existe

Por que você acredita na escassez? A abundância pode ser evidente, mas a escassez não. A falta não tem realidade e a crença em que ela não existe deve ser mudada.

Devemos entender que a escassez, deficiência, falta e limitação não são mais que sombras da realidade da abundância e as sombras nunca podem ser reais. A escassez não pode se manifestar. O nada não pode se tornar alguma coisa. Zero vezes zero é igual a zero.

O universo imaterial infinito está literalmente estourando de energia criativa da abundância e encontra o seu expositor para se expressar individualizando-se como cada um de nós, e então se irradia através da nossa consciência como forma e experiência existentes. Portanto, no lado invisível, nós temos tudo – nosso mundo é totalmente completo.

Quando observamos o nosso mundo visível, encontramos a mesma coisa. Diz-se que, se todo o dinheiro existente fosse dividido igualmente entre todas as pessoas da Terra, cada um de nós seria um superbilionário (mas aqueles que não tem a consciência da riqueza logo perderiam esse dinheiro para aqueles que tem essa consciência) e a mãe Natureza nos mostra que ela certamente não acredita em escassez. Olhe ao seu redor.

Mas e quanto às pessoas miseráveis do mundo? E o que dizer sobre aquelas que foram prósperas apenas para se descobrir de repente no buraco negro da falta de recursos? Isso torna a nos remeter àquela crença na escassez outra vez – ou à possibilidade de que ela possa, uma vez ou outra, erguer a sua horrível cabeça e tomar conta da nossa vida. Aqueles em que parece haver-se concretizado a pobreza serão liberados quando a mente coletiva mudar para a realidade espiritual. E as pessoas que entram e saem da prosperidade poderão voltar a trilhar o caminho da abundância ao mudar suas crenças pessoais. Lembre-se da lição: “A falta não tem realidade, e a crença em que ela existe deve ser mudada.”

Extraído do livro: O código de Jesus, de John Randolph Price, Ed. Pensamento