O povo de santo e a sobrevivência em meio à pandemia

Em 28/09/2021, como parte das atividades da Semana Universitária de 2021, da Unversidade de Brasília, Tata Kisange e o Pai Ricardo – filho da Cabana Senhora da Glória e dirigente do terreiro de Umbanda e Associação da Resistência Cultural Afro-Brasileira Casa de Caridade pai Jacob do Oriente – serão os debatedores do evento Encontros Afrorreligiosos VI: o povo de santo e suas estratégias de sobrevivência em meio à pandemia.

A proposta da atividade é gerar um espaço de compartilhamento sobre como as religiões afro-brasileiras têm sido praticadas e vividas ao longo da pandemia do covid-19. Diante desse contexto, muitas casas de santo foram impossibilitadas de realizar suas atividades plenamente, exigindo adaptações. Nesse período, as casas têm articulado estratégias para a continuidade e preservação das suas atividades, sejam religiosas, ou de prestação de serviço à comunidade e gestão do seu espaço, bem como as possíveis atividades à distância. Na intenção de compreender melhor as experiências vivenciadas pelos povos de terreiro, o grupo de estudos Calundu, que desenvolve há anos atividades de pesquisa e extensão na temática, propõe diálogo entre representantes de comunidades afrorreligiosas, com o intuito de falar sobre como o cotidiano foi afetado pelas adaptações sanitárias que o contexto exige.

O debate será conduzido por nosso Tata Mubnzazi.

Espaços Sagrados Protegidos

Em 13 de maio de 2021, dia em que a Cabana Senhora da Glória completou 60 anos desde a sua fundação, foi lançado o projeto “Espaços Sagrados Protegidos”. De iniciativa da Prefeitura Municipal de Belo Horizonte, o projeto promete mais proteção a terreiros e espaços afrorreligiosos da cidade, que contaram com fluxo de acesso específico junto à Guarda Municipal, para o encaminhamento e atendimento de demandas atinentes ao racismo religioso, que nossas casas ainda sofrem.

Conforme o Promotor de Justiça Allender Barreto, coordenador de Combate ao Racismo e Todas as Outras Formas de Discriminação do Ministério Público de Minas Gerais, “trata-se de um projeto importante que, rompendo preconceitos, redobra o esforço do Poder Público na proteção de espaços de fé, prestigiando o direito fundamental à liberdade religiosa”.

Na ocasião do lançamento, a Cabana Senhora da Glória foi reconhecida como um dos espaços sagrados mais antigos da cidade, sendo inserida no projeto como um dos espaços desde já protegidos pela Guarda Municipal. Nosso Tata Kis’ange, ogan mais antigo de Belo Horizonte, cantou cantigas de Lembá no encerramento do evento.

OBS: Por ter sido um evento realizado durante a pandemia do COVID-19, cabe ressaltar que todas as medidas sanitárias recomendadas de distanciamento social e cuidado foram tomadas.

(Re)Existência – O número de jan-jun/2019 da Revista Calundu

A Cabana Senhora da Glória, orgulhosamente, apoia as atividades do grupo de estudos Calundu, da Universidade de Brasília. Apoiamos de diferentes formas, inclusive por meio do trabalho de nosso ogan Tata Mub’nzazi, que é membro fundador do grupo.

Em seu processo de valorização da afrorreligiosidade por meio da educação, o grupo lançou neste semestre um número de sua Revista Calundu potente, denso, voltado para apresentar diferentes formas em que, no presente, a afrorreligiosidade brasileira segue existindo e resistindo, mesmo em um cenário de amplo racismo religioso. O grupo foi mais adiante e publicou textos autorais, escritos para instrumentalizarem professores em seu trabalho de ensino de história afro-brasileira em escolas (o que necessariamente passa por falar na afrorreligiosidade). Valorizando seu apoiador e um dos padrinhos deste trabalho, o grupo convidou a nosso Kivonda Kis’ange para escrever o texto de apresentação deste número da revista.

A Cabana Senhora da Glória se orgulha e se soma ao grande trabalho social do grupo Calundu. O número atual da Revista Calundu, com toda essa riqueza, pode ser acessado aqui e aqui.

EGBE – Encontro Nacional de Povos de Terreiros

Ao longo desta semana está sendo realizado em Belo Horizonte o “EGBE – Encontro Nacional de Povos de Terreiros”. Trata-se de evento que convida pessoas de todo o país a debater sobre nossas tradições sagradas e que conta com uma agenda de trabalhos e apresentações extensa e muito significativa. Neste sábado, nosso Tateto Nepanji estará presente e será homenageado por sua história afrorreligiosa de toda uma vida e importância militância por direitos humanos.

Veja neste link o convite recebido por nosso pai de santo e a programação do evento.

Terreiros contra racismo religioso

Neste mês de julho saiu, na Revista Darcy, da Universidade de Brasília, reportagem sobre a luta de afrorreligiosos contra o racismo religioso. Apesar de serem imprecisos os dados, há números que indicam uma escalada recente na violência contra terreiros – sempre existente em nosso país. Mais centros de Umbanda, Candomblés, casas de Tambor de Mina, dentre outros, vêm sendo atacados por pessoas que não respeitam a religião alheia e pelo próprio Estado. Pessoas, igualmente, vêm sendo agredidas com mais frequência pelas ruas do país. Como um todo, estes atos devem ser caracterizados como crimes de racismo – racismo religioso.

Nosso ogan Guilherme Nogueira, tata Mub’nzazi, é integrante do Grupo Calundu, da Universidade de Brasília. O grupo protagonizou o debate da reportagem e diferentes de seus integrantes, inclusive pai Mub’nzazi, foram entrevistados pelos repórteres da Revista Darcy. A ação do Grupo Calundu é apoiada pela Cabana Senhora da Glória – Nzo Kuna Nkos’i, que na figura de nosso tata se vê representada nesta luta por respeito e contra o racismo (religioso e todas as demais formas) brasileiro.

Expressamos, igualmente, nossos respeitos pelas falas do pai Carlos Juca, do terreiro de Umbanda Ogum Rompe Mato, e da mãe Baiana, do terreiro de Candomblé Ilê Axé Oyá Bagan. Ambos os terreiros são casas amigas de nossa Cabana.

A revista Darcy, com a reportagem em pauta, pode ser acessada neste link.

Tateto Nepanji e a celebração belorizontina a Iemanjá

No ano de 1965, há cinquenta e dois anos atrás, nossa mãe Iemanjá (que no Candomblé de nossa casa chamamos Kaiari) começou a ser homenageada nas margens da lagoa da Pampulha, em Belo Horizonte/MG. Àquela ocasião, uma procissão em carreata tinha inicio na Praça da Estação, centro da cidade, e, em cortejo ia até as proximidades da casa do baile, ponto turístico da cidade, onde entoavam-se cantigas em louvor à grande mãe. Nosso patriarca, um dos baluartes da Umbanda na cidade e ícone do Candomblé Moxicongo nas Minas Gerais, foi um dos idealizadores dessa homenagem e mais tarde, já membro conselheiro da então Federação Espírita Umbandista do Estado de Minas Gerais – entidade que também foi um dos fundadores – iniciou um processo de municipalização dessa festa religiosa. Na sua gestão como Presidente daquela entidade, iniciou conversas com o executivo municipal e após alguns anos, não só esse ato se tornou parte do calendário de eventos da cidade como também foi erguido um Portal em homenagem a Iemanjá, ficando o local, próximo a casa do baile, ponto fixo de louvor a nossa mãe. Uma imagem em tamanho real foi construída e colocada dentro da lagoa, na sua margem, para adoração dos adeptos no grande dia e também para visitação do publico em geral.

Com o passar dos anos e com o vandalismo de alguns, essa imagem precisou ser restaurada e um novo Portal foi construído. O evento nos dias atuais é realizado pelo poder público municipal e, neste ano, no dia 12 de dezembro, coincidindo com o aniversário de Belo Horizonte, foi entregue à população e aos adeptos e iniciados nas religiões de matrizes africanas, um local totalmente arrumado e respeitoso, onde os terreiros podem entoar suas cantigas rituais da grande mãe e todos podem fazer suas oferendas. Nosso tateto foi homenageado pelo conjunto da obra e nossa casa representada por alguns de seus filhos, que orgulhosamente lá estiveram. Fica aqui o registro e o respeito a todas e todos que durante anos elevaram o nome da Cabana Senhora da Glória – Nzo Kuna Nkos’i nessa grande festa.

Reconhecimento da Câmara Municipal de Belo Horizonte

A religiosidade afro-brasileira sempre acompanhou o povo negro deste país em sua luta por justiça social. E por reconhecer que estamos longe de alcançar este objetivo no Brasil, seguimos em luta. Em Belo Horizonte, a Câmara Municipal homenageia a Cabana Senhora da Glória – Nzo Kuna Nkos’i por sua militância negra no estado de Minas Gerais.

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Nossa contribuição à religiosidade afro-brasileira na Argentina

Na década de 1990 a Argentina – assim como o Brasil e boa parte da América Latina – passava por mudanças importantes no sentido do fortalecimento de sua recém reinaugurada democracia. Esse processo contou com a participação ativa da população daquele país, que juntamente à sua classe política buscava definir o modelo de nação que dominaria as décadas por vir. Nesse processo, também os grupos praticantes de religiões afro-brasileiras, particularmente religiosos umbandistas, organizaram-se como Sociedade Civil politicamente atuante e realizaram eventos visando ordenar suas práticas, publicizar sua religiosidade, quebrar estigmas amplamente presentes em um país de larga tradição europeizada e católica (sobre isso, cabe citar que ainda no presente a Constituição da República Argentina assegura o lugar do catolicismo como religião oficial do governo e defende a imigração de europeus). Tateto Nepanji foi, então, convidado como militante, autoridade e referência afro-religiosa, para auxiliar com seus conhecimentos à luta dos irmãos argentinos, tendo igualmente sido homenageado, em 1992, com o certificado que segue aqui reproduzido.

Certificado

Distribuição de cestas de alimentos

No ano de 2005, 301 terreiros de candomblé e casas de umbanda de oito estados da Federação, localizados em diversas cidades, foram contemplados com a ação de Distribuição de Cestas Alimentares. Essa ação, que é uma Política Pública que fazia parte do então Programa Fome Zero do Governo Federal, coordenada pelo Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome (MDS), objetivava auxiliar ao combate à fome e tornava a Comunidade de Terreiro em agente de Inclusão Social. Seu papel era o de ser um meio para a erradicação da pobreza e aumento da auto estima na região/comunidade do entorno do terreiro.

A partir de uma articulação da então Secretaria de Politicas de Promoção da Igualdade Racial da Presidência da República – SEPPIR/PR, MDS, alguns órgãos municipais e estaduais ligados à Promoção da Igualdade Racial, e também da Sociedade Civil organizada, foram feitas indicações de casas de Umbanda e Terreiros de Candomblé para esse recebimento. A Cabana Senhora da Glória – Nzo Kuna Nkos’i, foi uma das indicadas, e até os dias de hoje vem contribuindo com essa ação – hoje coordenada por outros programas do governo federal – junto à comunidade do entorno de sua sede, beneficiando várias famílias. São quarenta e oito cestas alimentares distribuídas mensalmente. Com essas é feito um rodizio de famílias, para que um maior número se beneficie da ação.

A Cabana Senhora da Gloria – Nzo Kuna Nkos’i entende ser necessário apoiar ações do poder público e auxiliar seus programas na condição de articuladora de Políticas Públicas, sem com isso manter vínculos partidários. A construção de uma sociedade mais justa e igualitária é o objetivo maior da luta do povo afrodescendente – este mesmo que tem a responsabilidade e incumbência de guardar os cultos a Nkinsis e Orixás no Brasil. A esta luta se soma, desde sempre, a nossa casa.