Como se sabe, a Cabana Senhora da Glória – Nzo Kuna Nkos’i foi alvo, em 2021, de crime de ódio, de racismo religioso, em que a nossa imagem de Iemanjá, que há décadas reinava em nosso gongá, foi quebrada. Esse ataque, cabe dizer, não foi só à nossa casa. Foi também a toda a afrorreligiosidade e, paralelamente, ao município de Belo Horizonte, visto que a Iemanjá quebrada era histórica – a imagem foi usada no primeiro cortejo da festa de Iemanjá da Lagoa da Pampulha, que foi iniciada por Tateto Nepanji e hoje é patrimônio imaterial da cidade.
A luta contra o racismo religioso não é só nossa. De todos os apoios que recebe, em 01/07/2022 a história da invasão à nossa casa foi publicizada novamente, em Brasília, a partir de entrevista com nosso Tata Mub’nzazi.
O ano de 2021 trouxe inúmeros desafios a toda a população mundial, visto a continuada pandemia da COVID-19, que desde 2020 a humanidade enfrenta. Além desses desafios, a Cabana Senhora da Glória enfrentou no ano passado outros problemas, motivados por ódio, tendo sofrido múltiplas invasões, quebra de imagens e outros itens, ademais de alguns roubos. Dentre todos os prejuízos, destaca-se a destruição da imagem histórica de Iemanjá que adornava nosso Gongá umbandista. Essa, cabe dizer, foi a primeira imagem a ser levada em carreata na tradicional festa de Iemanjá da Lagoa da Pampulha, cujas primeiras edições foram organizadas por nosso Tateto Nepanji. Hoje a festa é reconhecida como Patrimônio Cultural do município de Belo Horizonte (mais informações neste link).
Não obstante todo o ódio endereçado a nós, à nossa ancestralidade e ao nosso sagrado, marcas do racismo e, em específico, do racismo religioso brasileiro (para entender mais sobre racismo religioso, leia o texto deste link), a nossa casa propõe celebrarmos o amor e a beleza da nossa história, em comunhão com todas e todos. Para tanto, realizaremos no próximo dia 30/01/2022 o evento “Feijoada Cultural de arrecadação cultural”, no espaço Odara, no bairro União, em Belo Horizonte. Parte da arrecadação do evento será doada pelo Odara à Cabana Senhora da Glória, para apoiar a nossa reconstrução.
Sobre o evento Objetivo: Arrecadar recursos para recompor as perdas sofridas pela Cabana Senhora da Glória por conta da violência e do racismo religioso. Ação: Arrecadação via ingresso para o evento ou doações esporádicas para fomentar este suporte. O evento: O evento acontecerá no Odara (rua Arthur de Sá, 380 – União), os ingresso irão cobrir os custos básicos para realização do evento e o lucro será doado à Cabana Senhora da Glória. Haverá prestação de contas e anúncio de agradecimento final. O Odara possui divisão de ambiente e possui lotação máxima de 190 pessoas. Serão realizadas rodas de conversa em sala separada (capacidade máxima de 30 pessoas) sobre a Cabana Senhora da Glória e sua história, bem como sobre a tradição afrorreligiosa brasileira. A feijoada é liberada para todas e todos as/os participantes, que contarão também com o som ambiente entre apresentações e show do grupo de resgate de tradição do samba rural “herança ancestral” e apresentação e exposição da percepção do atabaque na nossa tradição.
Ingressos podem ser adquiridos antecipadamente. Clique aqui.
Em 13 de maio de 2021, dia em que a Cabana Senhora da Glória completou 60 anos desde a sua fundação, foi lançado o projeto “Espaços Sagrados Protegidos”. De iniciativa da Prefeitura Municipal de Belo Horizonte, o projeto promete mais proteção a terreiros e espaços afrorreligiosos da cidade, que contaram com fluxo de acesso específico junto à Guarda Municipal, para o encaminhamento e atendimento de demandas atinentes ao racismo religioso, que nossas casas ainda sofrem.
Conforme o Promotor de Justiça Allender Barreto, coordenador de Combate ao Racismo e Todas as Outras Formas de Discriminação do Ministério Público de Minas Gerais, “trata-se de um projeto importante que, rompendo preconceitos, redobra o esforço do Poder Público na proteção de espaços de fé, prestigiando o direito fundamental à liberdade religiosa”.
Na ocasião do lançamento, a Cabana Senhora da Glória foi reconhecida como um dos espaços sagrados mais antigos da cidade, sendo inserida no projeto como um dos espaços desde já protegidos pela Guarda Municipal. Nosso Tata Kis’ange, ogan mais antigo de Belo Horizonte, cantou cantigas de Lembá no encerramento do evento.
OBS: Por ter sido um evento realizado durante a pandemia do COVID-19, cabe ressaltar que todas as medidas sanitárias recomendadas de distanciamento social e cuidado foram tomadas.
No mês de dezembro de 2019, entre os dias 11 e 13, o Calundu – Grupo de Estudos sobre Religiões Afro-Brasileiras apresentou na Universidade de Harvard o painel “Desafios contemporâneos para o exercício de fé do Povo de Santo no Brasil”. Tratou-se de um momento importante para a educação sobre as religiões afro-brasileiras e seus adeptos, além de ser um marco na internacionalização da luta das comunidades de terreiro pelo direito de livre prática religiosa, que é tão antiga e combatida no Brasil.
A Cabana Senhora da Glória, ademais de apoiar o Grupo Calundu desde seu início, esteve representada no evento por nosso Tata Mub’nzazi, que é integrante do grupo e um de seus fundadores. Sua fala, junto à das participantes e egbomis do Candomblé Ketu Ariadne Oliveira e Andréa Guimarães, foi registrada pelo irmão Dom Filó, do lendário Movimento Black Rio e da Cultne – Acervo Digital de Cultura Negra. Veja nos vídeos abaixo as três falas.
O Grupo Calundu e seu trabalho (Egbomi Ariadne Oliveira)
Neste mês de julho saiu, na Revista Darcy, da Universidade de Brasília, reportagem sobre a luta de afrorreligiosos contra o racismo religioso. Apesar de serem imprecisos os dados, há números que indicam uma escalada recente na violência contra terreiros – sempre existente em nosso país. Mais centros de Umbanda, Candomblés, casas de Tambor de Mina, dentre outros, vêm sendo atacados por pessoas que não respeitam a religião alheia e pelo próprio Estado. Pessoas, igualmente, vêm sendo agredidas com mais frequência pelas ruas do país. Como um todo, estes atos devem ser caracterizados como crimes de racismo – racismo religioso.
Nosso ogan Guilherme Nogueira, tata Mub’nzazi, é integrante do Grupo Calundu, da Universidade de Brasília. O grupo protagonizou o debate da reportagem e diferentes de seus integrantes, inclusive pai Mub’nzazi, foram entrevistados pelos repórteres da Revista Darcy. A ação do Grupo Calundu é apoiada pela Cabana Senhora da Glória – Nzo Kuna Nkos’i, que na figura de nosso tata se vê representada nesta luta por respeito e contra o racismo (religioso e todas as demais formas) brasileiro.
Expressamos, igualmente, nossos respeitos pelas falas do pai Carlos Juca, do terreiro de Umbanda Ogum Rompe Mato, e da mãe Baiana, do terreiro de Candomblé Ilê Axé Oyá Bagan. Ambos os terreiros são casas amigas de nossa Cabana.
A revista Darcy, com a reportagem em pauta, pode ser acessada neste link.