Conselho Municipal de Promoção da Igualdade Racial – Belo Horizonte

No sábado, 12/07/2025, a Cabana Senhora da Glória – Nzo Kuna Nkos’i participou, como candidata, da eleição para o  7º Mandato do Conselho Municipal de Promoção da Igualdade Racial – Belo Horizonte (COMPIR-BH), referente ao biênio 2025-2027. Com alegria comunicamos nossa eleição como entidade representante da sociedade civil, mais especificamente no seguimento de entidades religiosas, na vaga destinada à instuição representante do Candomblé.

Nossa eleição para o COMPIR-BH ratifica nossa histórica luta por direitos ao povo negro e afrorreligioso belorizontino, desde meados do século passado encampada por nosso Tateto N’panji e por nossa Mameto Mutunji. Nosso pai e nossa mãe fundador/a seguem vivo/a, o que não obsta o fato de sua luta já ter sido herdada por Tata Kis’ange e Tata Mub’Nzazi, que serão nossos representantes no Conselho, bem como por todas as filhas e todos os filhos da Cabana.

Fundada em 13 de maio de 1961, a Cabana Senhora da Glória – Nzo Kuna Nkos’i é o mais antigo terreiro afrorreligioso em funcionamento em Belo Horizonte. Iniciou suas atividades como centro umbandista e, em 1964, pelas mãos de Mameto Oloiá, do terreiro do Bate Folhinha, de Salvador, assentou os fundamentos do Candomblé, tornando-se a primeira casa da tradição Angola Moxicongo em Minas Gerais. Foi em reconhecimento a essa história que a Comissão Eleitoral do 7º Processo de Eleição dos(as) Representantes das Entidades não governamentais e da Sociedade Civil elegeu, por meio de votação democrática, nossa casa como integrante do COMPIR-BH.

A publicação no Diário Oficial do Município, que torna público e oficial o resultado da eleição, data de 18/07/2025 e pode ser acessada a partir do seguinte link: https://dom-web.pbh.gov.br/visualizacao/ato/465326

Mestre da Cultura Popular

No último dia 29 de junho de 2024, nosso Tatetu N’panji foi homenageado com a premiação de Mestre da Cultura Popular de Belo Horizonte. Em sua sexta edição, o prêmio é entregue pela prefeitura da cidade às pessoas que, conforme compreende o poder público, são/foram “responsáveis pela transmissão e perpetuação de saberes, celebrações e formas de expressão que compõem o patrimônio cultural” de Belo Horizonte.

O prêmio é um reconhecimento do poder público de algo que sabemos ser verdade desde sempre, que é a importância de nosso pai de santo para a afrorreligiosidade da nossa cidade. Pai N’panji chegou a BH em meados do século XX, por orientação da Preta Velha mãe Felisbina, com a incumbência de ser um líder espiritual, com terreiro aberto por aqui. Já era iniciado na Cabula desde 1938 e praticava a Umbanda no Rio de Janeiro desde 1944. Foi o primeiro filho do Candomblé Angola Moxicongo, raiz do terreiro Bate Folha de Salvador, iniciado em Minas Gerais. E segue desde suas iniciações como um guardião e transmissor desses conhecimentos, com respeito e valorização a seus ritos e segredos. Iniciou centenas de pessoas no Candomblé e outras tantas se desenvolveram na Umbanda na Cabana Senhora da Glória. Seu mestrado nos saberes afro-diaspóricos é longevo.

Se por um lado o prêmio e título de Mestre da Cultura Popular recebido por Tatetu N’panji é simbólico e um bonito reconhecimento de sua história de vida, é também, por outro lado, uma equiparação de seu conhecimento àquele de um mestre acadêmico. Com efeito, a noção por trás do título de Mestre da Cultura Popular surge na Universidade de Brasília, a partir dos trabalhos do antropólogo José Jorge de Carvalho. Este professor defende não haver hierarquia de saberes entre um professor universitário e um mestre popular. Pelo contrário, milita pela presença de mestres populares, como professores, nas salas de aulas das universidades brasileiras, levando a estudantes o conhecimento que é seu, outrora, em um passado não muito distante, tratado como objeto de pesquisa, apropriado por pesquisadores, em geral homens brancos, e lecionado na Academia como tal. Ainda que o crédito fosse dado por esses pesquisadores às pessoas das comunidades pesquisadas, não há nada mais autêntico e justo do que reconhecer que as/es/os guardiã/es dos saberes são, elas/eles próprias/es/os, as pessoas que com mais legitimidade podem falar de suas tradições.

Pai N’panji, no que tange à educação formal, apenas cursou a escola até a quarta série do ensino primário (hoje quinto ano do ensino fundamental). No entanto, é um mestre apto a lecionar em salas de aulas universitárias, participar de bancas de defesas de mestrado e contribuir à educação formal de novas gerações – as mesmas que há dezenas de anos contribui para a formação espiritual.

Humildemente, saudamos a grandiosidade de nosso Tatetu e elevamos nossas orações pelo reconhecimento e justiça a todas, todes e todos mestres populares que o Brasil (e o mundo!) têm. Que sejam reconhecidas/es/os e sigam contribuindo ao mundo, assim como nosso pai de santo.

Mazelele, Tatetu N’panji!

Tambores e Corporalidades Negras

Na sexta-feira, 28/04/2023, nosso Tata Kis’ange proferiu a palestra “Tambores e Corporalidades Negras” no Centro Nacional de Africanidade e Resistência Afro-Brasileira. Em sua fala, contou sobre a história da Cabana Senhora da Glória, relembrando sua presença desde criança em nosso terreiro, o que fazia acompanhando Tateto Nepanji e Mameto Mutunji, fundador e fundadora da casa e seus pais biológicos, como sabemos.

Ogan confirmado há mais de 50 anos (se confirmou aos 17 anos de idade), Tata Kis’ange falou sobre como os tambores são o meio de comunicação com os inquices, convidando-os a se incorporarem e dançarem (e muito mais) junto a nós.

Em sua fala, Tata Kis’ange relembrou também da recém falecida Nengua Guanguaces’i, de nossa casa avó Bate Folha. Essa grande mãe foi saudada e homenageada com palmas.

O povo de santo e a sobrevivência em meio à pandemia

Em 28/09/2021, como parte das atividades da Semana Universitária de 2021, da Unversidade de Brasília, Tata Kisange e o Pai Ricardo – filho da Cabana Senhora da Glória e dirigente do terreiro de Umbanda e Associação da Resistência Cultural Afro-Brasileira Casa de Caridade pai Jacob do Oriente – serão os debatedores do evento Encontros Afrorreligiosos VI: o povo de santo e suas estratégias de sobrevivência em meio à pandemia.

A proposta da atividade é gerar um espaço de compartilhamento sobre como as religiões afro-brasileiras têm sido praticadas e vividas ao longo da pandemia do covid-19. Diante desse contexto, muitas casas de santo foram impossibilitadas de realizar suas atividades plenamente, exigindo adaptações. Nesse período, as casas têm articulado estratégias para a continuidade e preservação das suas atividades, sejam religiosas, ou de prestação de serviço à comunidade e gestão do seu espaço, bem como as possíveis atividades à distância. Na intenção de compreender melhor as experiências vivenciadas pelos povos de terreiro, o grupo de estudos Calundu, que desenvolve há anos atividades de pesquisa e extensão na temática, propõe diálogo entre representantes de comunidades afrorreligiosas, com o intuito de falar sobre como o cotidiano foi afetado pelas adaptações sanitárias que o contexto exige.

O debate será conduzido por nosso Tata Mubnzazi.

Espaços Sagrados Protegidos

Em 13 de maio de 2021, dia em que a Cabana Senhora da Glória completou 60 anos desde a sua fundação, foi lançado o projeto “Espaços Sagrados Protegidos”. De iniciativa da Prefeitura Municipal de Belo Horizonte, o projeto promete mais proteção a terreiros e espaços afrorreligiosos da cidade, que contaram com fluxo de acesso específico junto à Guarda Municipal, para o encaminhamento e atendimento de demandas atinentes ao racismo religioso, que nossas casas ainda sofrem.

Conforme o Promotor de Justiça Allender Barreto, coordenador de Combate ao Racismo e Todas as Outras Formas de Discriminação do Ministério Público de Minas Gerais, “trata-se de um projeto importante que, rompendo preconceitos, redobra o esforço do Poder Público na proteção de espaços de fé, prestigiando o direito fundamental à liberdade religiosa”.

Na ocasião do lançamento, a Cabana Senhora da Glória foi reconhecida como um dos espaços sagrados mais antigos da cidade, sendo inserida no projeto como um dos espaços desde já protegidos pela Guarda Municipal. Nosso Tata Kis’ange, ogan mais antigo de Belo Horizonte, cantou cantigas de Lembá no encerramento do evento.

OBS: Por ter sido um evento realizado durante a pandemia do COVID-19, cabe ressaltar que todas as medidas sanitárias recomendadas de distanciamento social e cuidado foram tomadas.

(Re)Existência – O número de jan-jun/2019 da Revista Calundu

A Cabana Senhora da Glória, orgulhosamente, apoia as atividades do grupo de estudos Calundu, da Universidade de Brasília. Apoiamos de diferentes formas, inclusive por meio do trabalho de nosso ogan Tata Mub’nzazi, que é membro fundador do grupo.

Em seu processo de valorização da afrorreligiosidade por meio da educação, o grupo lançou neste semestre um número de sua Revista Calundu potente, denso, voltado para apresentar diferentes formas em que, no presente, a afrorreligiosidade brasileira segue existindo e resistindo, mesmo em um cenário de amplo racismo religioso. O grupo foi mais adiante e publicou textos autorais, escritos para instrumentalizarem professores em seu trabalho de ensino de história afro-brasileira em escolas (o que necessariamente passa por falar na afrorreligiosidade). Valorizando seu apoiador e um dos padrinhos deste trabalho, o grupo convidou a nosso Kivonda Kis’ange para escrever o texto de apresentação deste número da revista.

A Cabana Senhora da Glória se orgulha e se soma ao grande trabalho social do grupo Calundu. O número atual da Revista Calundu, com toda essa riqueza, pode ser acessado aqui e aqui.

EGBE – Encontro Nacional de Povos de Terreiros

Ao longo desta semana está sendo realizado em Belo Horizonte o “EGBE – Encontro Nacional de Povos de Terreiros”. Trata-se de evento que convida pessoas de todo o país a debater sobre nossas tradições sagradas e que conta com uma agenda de trabalhos e apresentações extensa e muito significativa. Neste sábado, nosso Tateto Nepanji estará presente e será homenageado por sua história afrorreligiosa de toda uma vida e importância militância por direitos humanos.

Veja neste link o convite recebido por nosso pai de santo e a programação do evento.

Terreiros contra racismo religioso

Neste mês de julho saiu, na Revista Darcy, da Universidade de Brasília, reportagem sobre a luta de afrorreligiosos contra o racismo religioso. Apesar de serem imprecisos os dados, há números que indicam uma escalada recente na violência contra terreiros – sempre existente em nosso país. Mais centros de Umbanda, Candomblés, casas de Tambor de Mina, dentre outros, vêm sendo atacados por pessoas que não respeitam a religião alheia e pelo próprio Estado. Pessoas, igualmente, vêm sendo agredidas com mais frequência pelas ruas do país. Como um todo, estes atos devem ser caracterizados como crimes de racismo – racismo religioso.

Nosso ogan Guilherme Nogueira, tata Mub’nzazi, é integrante do Grupo Calundu, da Universidade de Brasília. O grupo protagonizou o debate da reportagem e diferentes de seus integrantes, inclusive pai Mub’nzazi, foram entrevistados pelos repórteres da Revista Darcy. A ação do Grupo Calundu é apoiada pela Cabana Senhora da Glória – Nzo Kuna Nkos’i, que na figura de nosso tata se vê representada nesta luta por respeito e contra o racismo (religioso e todas as demais formas) brasileiro.

Expressamos, igualmente, nossos respeitos pelas falas do pai Carlos Juca, do terreiro de Umbanda Ogum Rompe Mato, e da mãe Baiana, do terreiro de Candomblé Ilê Axé Oyá Bagan. Ambos os terreiros são casas amigas de nossa Cabana.

A revista Darcy, com a reportagem em pauta, pode ser acessada neste link.

Tateto Nepanji e a celebração belorizontina a Iemanjá

No ano de 1965, há cinquenta e dois anos atrás, nossa mãe Iemanjá (que no Candomblé de nossa casa chamamos Kaiari) começou a ser homenageada nas margens da lagoa da Pampulha, em Belo Horizonte/MG. Àquela ocasião, uma procissão em carreata tinha inicio na Praça da Estação, centro da cidade, e, em cortejo ia até as proximidades da casa do baile, ponto turístico da cidade, onde entoavam-se cantigas em louvor à grande mãe. Nosso patriarca, um dos baluartes da Umbanda na cidade e ícone do Candomblé Moxicongo nas Minas Gerais, foi um dos idealizadores dessa homenagem e mais tarde, já membro conselheiro da então Federação Espírita Umbandista do Estado de Minas Gerais – entidade que também foi um dos fundadores – iniciou um processo de municipalização dessa festa religiosa. Na sua gestão como Presidente daquela entidade, iniciou conversas com o executivo municipal e após alguns anos, não só esse ato se tornou parte do calendário de eventos da cidade como também foi erguido um Portal em homenagem a Iemanjá, ficando o local, próximo a casa do baile, ponto fixo de louvor a nossa mãe. Uma imagem em tamanho real foi construída e colocada dentro da lagoa, na sua margem, para adoração dos adeptos no grande dia e também para visitação do publico em geral.

Com o passar dos anos e com o vandalismo de alguns, essa imagem precisou ser restaurada e um novo Portal foi construído. O evento nos dias atuais é realizado pelo poder público municipal e, neste ano, no dia 12 de dezembro, coincidindo com o aniversário de Belo Horizonte, foi entregue à população e aos adeptos e iniciados nas religiões de matrizes africanas, um local totalmente arrumado e respeitoso, onde os terreiros podem entoar suas cantigas rituais da grande mãe e todos podem fazer suas oferendas. Nosso tateto foi homenageado pelo conjunto da obra e nossa casa representada por alguns de seus filhos, que orgulhosamente lá estiveram. Fica aqui o registro e o respeito a todas e todos que durante anos elevaram o nome da Cabana Senhora da Glória – Nzo Kuna Nkos’i nessa grande festa.