Mameto Mutunji e as mulheres negras do Brasil

Mulheres negras do Brasil

Bem como todo lugar, o Brasil é feito de pessoas e suas histórias. Algumas pessoas, particularmente, passam para a história do Brasil, seja por suas ações, ou pelo que representam. Nisso, as mulheres negras brasileiras certamente merecem destaque, tanto por suas ações quanto por tudo mais. Seu papel para a construção da sociedade brasileira é inegável, embora o racismo e o machismo reinantes teimem em negá-lo.

Dentre histórias de mulheres negras brasileiras e sua contribuição para o país, destaca-se nossa própria Mameto Mutunji, lembrada por Schuma Schumaher e Érico Vital Brazil em seu livro didático “Mulheres Negras do Brasil” (Editora SENAC, Rio de Janeiro). A reprodução em destaque nesse post é a página 152 (edição publicada em 2006), em que, a esquerda, no alto, encontra-se a foto de Mameto Mutunji.

Para além do orgulho que temos de nossa Mameto e de todas as mulheres negras, recomendamos aqui a leitura desse livro. Conhecimento nunca é prejudicial e, no que tange a essa temática específica, é central para a compreensão do Brasil e para que se faça justiça sobre a forma como essa mesma segue ocorrendo.

Saiba que a escassez não existe

Por que você acredita na escassez? A abundância pode ser evidente, mas a escassez não. A falta não tem realidade e a crença em que ela não existe deve ser mudada.

Devemos entender que a escassez, deficiência, falta e limitação não são mais que sombras da realidade da abundância e as sombras nunca podem ser reais. A escassez não pode se manifestar. O nada não pode se tornar alguma coisa. Zero vezes zero é igual a zero.

O universo imaterial infinito está literalmente estourando de energia criativa da abundância e encontra o seu expositor para se expressar individualizando-se como cada um de nós, e então se irradia através da nossa consciência como forma e experiência existentes. Portanto, no lado invisível, nós temos tudo – nosso mundo é totalmente completo.

Quando observamos o nosso mundo visível, encontramos a mesma coisa. Diz-se que, se todo o dinheiro existente fosse dividido igualmente entre todas as pessoas da Terra, cada um de nós seria um superbilionário (mas aqueles que não tem a consciência da riqueza logo perderiam esse dinheiro para aqueles que tem essa consciência) e a mãe Natureza nos mostra que ela certamente não acredita em escassez. Olhe ao seu redor.

Mas e quanto às pessoas miseráveis do mundo? E o que dizer sobre aquelas que foram prósperas apenas para se descobrir de repente no buraco negro da falta de recursos? Isso torna a nos remeter àquela crença na escassez outra vez – ou à possibilidade de que ela possa, uma vez ou outra, erguer a sua horrível cabeça e tomar conta da nossa vida. Aqueles em que parece haver-se concretizado a pobreza serão liberados quando a mente coletiva mudar para a realidade espiritual. E as pessoas que entram e saem da prosperidade poderão voltar a trilhar o caminho da abundância ao mudar suas crenças pessoais. Lembre-se da lição: “A falta não tem realidade, e a crença em que ela existe deve ser mudada.”

Extraído do livro: O código de Jesus, de John Randolph Price, Ed. Pensamento

Umbanda, organização e funcionamento

Toda escola espiritualista impõe um período iniciático cuja extensão é variável, porém, encerra o princípio de subordinação à uma disciplina rigorosa e de elevado alcance moral, que leva o neófito a viver um regime de aperfeiçoamento e evolução espiritual. A primeira fase iniciativa imposta pela Umbanda, é rigorosa, estabelece condição da continuidade ou não do candidato aos mistérios da doutrina secreta. O candidato começa por desenvolver a atenção, a meditação, a concentração mental. Em seguida, à proporção que se desenvolve, procura conhecer os efeitos da abstração, o valor da prece, e a prática de exercícios respiratórios seguindo as disposições rítmicas. Esta primeira pela exercitação constante de uma rigorosa higiene moral e corporal, e de uma dietética que inclui o regime vegetariano racional e selecionado; o cultivo dos mais puros e elevados ideais espiritualistas; altruísmo, a abnegação, a fraternidade, a solidariedade para com os seres irracionais e as plantas, e os minerais; a renúncia ao efêmero; o estudo das letras sagradas que formam a ciência secreta, e os evangelhos que constituem os preceitos da lei moral do “amai-vos uns aos outros e a Deus sobre todas as coisas.” Existem dois sistemas básicos: a Magia, que visa o estudo e o domínio completo bem como o condicionamento das vidas na matéria, do corpo físico, do corpo astral e do corpo mental; e o Evangelho, que se destina a despertar o Eu Superior, dando-lhe as regras para o acesso na jornada evolucional para os planos divinos.

Pela prática dos dois sistemas apontados, o umbandista procura atingir o seu máximo objetivo – a realização crística em seu espírito – que se levará ao conhecimento perfeito e a manipulação das forças ocultas da natureza, dispondo de meios supranormais. Segundo Paulo Gomes de Oliveira, a doutrina do setenário representa o método de disciplina moral mais eficaz e puro, para obtenção do progresso espiritual, que resulta na união com o Pai, e por conseguinte, na obtenção de faculdades supranormais. Sendo o campo experimental da manipulação das forças ocultas de suma importância e onde os perigos surgem a cada experiência, o período iniciático é o caminho de obtenção pela fé e pela prece, pela meditação e pelo estudo, pela higiene do corpo e da moral, de um estado mental culto e ativo onde as emoções estejam fundamentadas tão somente na divindade.

Todo neófito tem que conquistar por si mesmo, por sua vontade inquebrável, a sua tríplice purificação: física-mental-moral, para que não venha a quebrar a lei de harmonia, lesando o seu próximo por pensamentos, palavras e ações.

A proporção que renuncia completa e integralmente os prazeres do álcool, dos entorpecentes, da fornicação, da luxúria, do jogo, todos os vícios e prazeres que se escondem sob aspectos sutis do sectarismo, começa a surgir o homem moral, e com ele as disposições para compreensão de uma vida superior. O umbandista tem que ser em verdade, perfeito e completo; ao fim da sua longa iniciação, quando na plenitude de seus poderes supranormais, torna-se no legítimo símbolo da vitória da espiritualidade sobre a matéria, e o esplendor da fé sobre as sombras da ignorância. É a fase do triunfo do Eu Superior sobre o atavismo animal, causa das enfermidades da natureza inferior do homem, e que são uma evidente desgraça nos dias deste fim de século.

Alcançada a vitória do Eu Superior sobre os atavismos do campo animal, o iniciado, começa a penetrar o valor das vibrações pelos mantras musicados, passando ao campo experimental da manipulação das forças ocultas da natureza, a tarefa que se lhe impõe desde o auspicioso momento é aquela de despertar os centros de força do corpo astral, os chacras, estudando-lhes os movimentos e a maneira pela qual atuam no corpo mental e também nos centros de força do corpo físico-químico. Dois novos perigos se apresentam: a morte e a loucura. Eis porque é necessário o caminho de aprendizagem ou de iniciação gradual, sistemática e paciente que resultará no extermínio de diabólicos vícios que deturpam e enfraquecem o corpo físico-químico e mancham e aviltam o corpo anímico.

 UMBANDA SAGRADA E DIVINA

O corpo anímico tem que permanecer puro para conhecer e realizar nos momentos precisos a transfusão de vida, elaborada pela força vital. Temos diante de nós os mais desoladores quadros em matéria de patologia médica. Um grupo de doenças é por ela classificado por sem matéria porque as causas são obscuras; mas podemos ter certeza, que todas elas são radicadas em sua origem, nos desequilíbrios da força vital que opera no campo da sensibilidade do corpo anímico astral.

Não poderá haver mediunidade curadora nenhuma outra sem que o corpo anímico esteja em perfeita tonalidade vital, pois nele, residem as propriedades de detenção, transformação e emissão da vitalidade solar, cujo poder curativo dos seus eflúvios para grande número de doenças é sem a menor dúvida, extraordinário, revestindo-se por que ver com decantado magnetismo telúrico ou terrestre, e ainda que repudiado pela ciência oficial, que é acanhada e imprecisa em seus limitadíssimos domínios, constitui a mais excelente terapêutica, porque emana da força vital, oceano da vida e das formas. A Umbanda, leva o iniciado ao estudo da mediunidade, classificando-a em três grupos conforme já tivemos oportunidade de estudar anteriormente.

 KIMBANDA

KIA

 DIHAMBA-NGANGA-KUSAKA

 Dihamba está constituída pelos médiuns: Videntes, auditivos, psicógrafos e falantes. É por ela que chegam as revelações dos planos superiores que se transformam em matéria de estudos. Podemos dizer que a ordem em apreço representa a pedra angular da doutrina secreta no tocante ao seu estudo e desenvolvimento. Dihamba que significa vulgarmente fumaça e também chama, toma o sentido de radiação, luz etérea, e a sua coroa é o sol no sentido espiritual. Dessa primeira ordem mediúnica dependem as outras duas uma vez que representa a fonte de sustento superior espiritual. Nganga que quer dizer o que está ligado à ação astral, o que é veículo do astral, comporta os médiuns de: bilocação, materialização e desmaterialização, transporte de objetos, cirurgias astrais e vivificação de flores e plantas. É uma ordem respeitável pelos fenômenos que produz e seus membros devem revestir-se de muita responsabilidade. Sua coroa é a lua também no sentido espiritual da doutrina secreta. Sua ação rege a terceira ordem que é formada por elementos afins dada a natureza da ação mediúnica.

A terceira ordem é: Kusaka, o que cura, o que reabilita e restaura a tonalidade vital dos corpos. A terceira ordem aplica-se a magia dos elementos e atende a todas as necessidades dos seres. É uma fonte de consolações e de esperanças que excede o entendimento em virtude dos métodos que emprega para facilitar a circulação da caridade descida do reino de Deus por misericórdia. Seu campo de sustento é o plano cósmico, a matéria anímica, hiperfísica. As forças sutis com que trabalha, age e reage, exige aos médiuns uma vida pautada pela temperança em todos os sentidos. O plano de suas cogitações é o chamado das almas e sua coroa é a natureza.

A Umbanda, como temos afirmado, não usa o chamado espiritismo da mesma forma com que o fazem outras escolas porque, o intercâmbio e relações com os desencarnados se representa um valor muitíssimo elevado, todavia não é o precípuo da sua doutrina que ensina o despertar do homem invisível com todos os seus atributos. Permanecer tão somente na ordem dos fenômenos espirituais seria acomodar-se com a evolução de terceiros ao mesmo tempo em que abdicar da própria evolução. Seria permanecer ligado a alma grupal e jamais caminhar no sentido de possuir e viver as virtudes da alma individualizada. Assim sendo, a Umbanda destaca os fenômenos anímicos que são estudados e empregados como veículo de evolução pela ação e pelo estudo aplicado no sentido da melhoria do eu.

A primeira ordem mediúnica é a mesma que em tempos passados reunia os profetas. É por ela que se desenvolve a sua doutrina que passa pela tradição e prosperidade.

Hoje em dia já se tornou uma necessidade em vista do que a experiência indicou, de escrever-se sobre a ciência secreta vivida pela escola umbandista. Podemos observar sem nenhuma dificuldade a multiplicação das casas umbandistas. Algumas centenas de umbandistas já estão interessados no estudo da matéria, a proporção que as casas que ostentavam o título de umbandistas vão ficando a margem para receberem a classificação de Candomblé e Canjerê. Isto acontece porque a maioria julga que o assunto tão elevado, penetra-se sem estudos. Julgam que a magia é a prática de uma série infinita de atos infantis e algumas vezes fetichistas, e que o fenômeno espírita propriamente dito é abrir a boca e falar revestindo a linguagem de palavras repassadas de ternura ou de conhecimentos limitados, para que aqueles que os ouvem não tenham dúvidas de estarem diante de um médium pelo qual se processa o fenômeno.

Via de regra tais casas não passam de locais de péssimas diversões e que se escondem discretamente sob o estandarte de uma doutrina respeitável e digna. Se o folclore indígena e africano dá uma nota pitoresca ao recinto, em verdade, não vejo de que forma descobrir qualquer indício de espiritualidade e compenetração da responsabilidade em relação ao Eu.

A doutrina umbandista não oferece facilidades, tampouco está ao alcance de qualquer indivíduo, daí a necessidade de iniciação lenta e gradativa. É preciso um estágio iniciador para poder ser compreendida pela maioria dos seres que infelizmente permaneceram afastados das veredas espiritualistas. A iniciação a que aludimos não implica na reclusão do ser, mas na sua rigorosa e completa liberdade de ação no ambiente em que vive. A iniciação compreende o estudo, a meditação sobre tudo quanto é superior e que promova a elevação moral do homem, ao mesmo tempo em que a capacita a penetrar o setenário alma para poder utilizar com sabedoria o corpo físico e seus sentidos. A proporção que se reveste de responsabilidade compreende o encadeamento dos atos e fatos que o cercam a cada instante. O estudo lhe é por condição essencial, e a matéria é fornecida pela fonte inesgotável da doutrina que vence os milênios, a doutrina secreta.

Aquela segunda ordem mediúnica fornece aos iniciados de segundo grau material mais direto para a compreensão dos elementos e estados da natureza, evidenciando as leis que regulam as formas e os fluídos. A terceira ordem é uma fonte regeneradora das energias dispendidas quer no sentido físico, quer no sentido hiperfísico. Todos os trabalhos levados a efeito nos templos umbandistas obedecem a ação e a ordem.

Em todos os templos umbandistas existem disposições para os trabalhos, para que tenham lugar sem tropeços e ruídos exteriores. A formação da cadeia astral é constituída por elementos mediúnicos das três ordens.

As ordens mediúnicas funcionam em íntima relação umas com as outras, e os seus elementos devem cultivar as virtudes da fé, esperança e caridade, por intermédio do Evangelho de Jesus que é a maior revelação da misericórdia de Deus, e o amor que domina pela harmonia espiritual.

O estudo da magia ensina a ação que deverá ser desenvolvida no tempo e no espaço, realizando no quaternário a obra a que se destinou: sabedoria.

Por intermédio dos espíritos com os quais mantém relações e intercâmbio, procura através do estudo e da meditação compreender o código da lei kármica, seguindo uma linha de conduta orientadora no mundo de experimentações.

Organizado por Tateto Nepanji

Nossa contribuição à religiosidade afro-brasileira na Argentina

Na década de 1990 a Argentina – assim como o Brasil e boa parte da América Latina – passava por mudanças importantes no sentido do fortalecimento de sua recém reinaugurada democracia. Esse processo contou com a participação ativa da população daquele país, que juntamente à sua classe política buscava definir o modelo de nação que dominaria as décadas por vir. Nesse processo, também os grupos praticantes de religiões afro-brasileiras, particularmente religiosos umbandistas, organizaram-se como Sociedade Civil politicamente atuante e realizaram eventos visando ordenar suas práticas, publicizar sua religiosidade, quebrar estigmas amplamente presentes em um país de larga tradição europeizada e católica (sobre isso, cabe citar que ainda no presente a Constituição da República Argentina assegura o lugar do catolicismo como religião oficial do governo e defende a imigração de europeus). Tateto Nepanji foi, então, convidado como militante, autoridade e referência afro-religiosa, para auxiliar com seus conhecimentos à luta dos irmãos argentinos, tendo igualmente sido homenageado, em 1992, com o certificado que segue aqui reproduzido.

Certificado

Festa de santos na vizinhança: terreiros de Candomblé na cidade de Belo Horizonte

Observação: Este texto é um artigo científico, apresentado em agosto de 2014 no IV Congresso Internacional do Núcleo de Estudos das Américas da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, por Guilherme Nogueira, Tata Mub’nzazi, ogan de nossa casa. Guilherme é Mestre em Ciências Sociais e Doutorando em Sociologia pela Universidade de Brasília. O texto completo, publicado nos anais do evento, pode ser acessado e baixado em formato .pdf neste link.

Resumo: Busco com o presente artigo apresentar elementos que auxiliem a entender as formas como a religiosidade e a tradição afro-brasileira existem na cidade de Belo Horizonte. Para tanto, dentre outras atividades, participei da festa do nkinse Nsunbu, senhor das chagas e das curas, no terreiro Nzo Kuna Nkosi, que segue a tradição do Candomblé Angola, de raiz banto. Busquei descrever o funcionamento da festa e, em sua análise, a partir dos trabalhos de Callois e Simmel, elucidar elementos que apontam para a maneira como os candomblecistas entendem a sua própria religiosidade. Tentei demonstrar que tal compreensão, aliada à capacidade que os terreiros possuem de absorver elementos e se adaptar a seu mundo externo, levam-lhes a preservar suas tradições e a sacralidade de seus cultos.

Palavras-chave: Candomblé, nkinses, modernidade.

Distribuição de cestas de alimentos

No ano de 2005, 301 terreiros de candomblé e casas de umbanda de oito estados da Federação, localizados em diversas cidades, foram contemplados com a ação de Distribuição de Cestas Alimentares. Essa ação, que é uma Política Pública que fazia parte do então Programa Fome Zero do Governo Federal, coordenada pelo Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome (MDS), objetivava auxiliar ao combate à fome e tornava a Comunidade de Terreiro em agente de Inclusão Social. Seu papel era o de ser um meio para a erradicação da pobreza e aumento da auto estima na região/comunidade do entorno do terreiro.

A partir de uma articulação da então Secretaria de Politicas de Promoção da Igualdade Racial da Presidência da República – SEPPIR/PR, MDS, alguns órgãos municipais e estaduais ligados à Promoção da Igualdade Racial, e também da Sociedade Civil organizada, foram feitas indicações de casas de Umbanda e Terreiros de Candomblé para esse recebimento. A Cabana Senhora da Glória – Nzo Kuna Nkos’i, foi uma das indicadas, e até os dias de hoje vem contribuindo com essa ação – hoje coordenada por outros programas do governo federal – junto à comunidade do entorno de sua sede, beneficiando várias famílias. São quarenta e oito cestas alimentares distribuídas mensalmente. Com essas é feito um rodizio de famílias, para que um maior número se beneficie da ação.

A Cabana Senhora da Gloria – Nzo Kuna Nkos’i entende ser necessário apoiar ações do poder público e auxiliar seus programas na condição de articuladora de Políticas Públicas, sem com isso manter vínculos partidários. A construção de uma sociedade mais justa e igualitária é o objetivo maior da luta do povo afrodescendente – este mesmo que tem a responsabilidade e incumbência de guardar os cultos a Nkinsis e Orixás no Brasil. A esta luta se soma, desde sempre, a nossa casa.