O Senhor dos Caminhos e nossas decisões

Le mambuko Pambu N’jila.

Muitas vezes somos arguidos por consulentes, muzenzas e até mesmo adeptos de outros processos religiosos (cristãos, em maioria), sobre o “que” e o “porque” de determinada situação que estamos vivenciando custar a se resolver. Várias respostas podem ser dadas para esse questionamento e todas, sem exceção, nos levam a pensar sobre o “além” que rege nossa vida terrena.

Ledo engano.

Toda e qualquer situação que estejamos passando no plano terreno é fruto das nossas escolhas e exercício do livre arbítrio. Ninguém é responsável pelos e por nossos atos, a não ser nós mesmos. Nzambi, na sua infinita bondade e misericórdia, jamais nos desampara e muito menos nos abandona, mas respeita nossas decisões e escolhas, sempre nos orientando para o caminho do bem, até que estejamos prontos para o entendimento do “porque”.

Tateto Nepanji, zelador da nossa casa “Cabana Senhora da Glória – Nzo Kuna Nkos’i”, juntamente com Mameto Mutunji, mãe pequena dessa casa, e, meus pais pelos laços de sangue e família terrena, sempre me disseram: “faça o bem, mesmo que isso te custe o sono, porque a fatura chega para ser quitada em algum momento.” “Plantou e fez o bem ao semelhante, colherá o bem para sí mesmo.” Nessa linha, a recíproca também é verdadeira.

É bem mais fácil atribuirmos ao outro o revés de nossa vida do que olharmos nossas atitudes em relação ao outro ou a nós mesmos. O Candomblé, enquanto meio para o culto à ancestralidade e aos nkins’is, é, no meu juízo de entendimento, berço para a renovação de nossa energia, física e mental, mas jamais seria o próprio nkins’i ou muito menos o ancestral. Como local, é onde tomamos nosso banho de ervas sagradas e refletimos sobre nossa vida na fé ancestral que escolhemos, nos iniciamos ou somos confirmados, caso dos Tatas e das Makotas. A porta é única e ao cruzá-la, seja em uma ou outra casa, estamos conscientes que o nkins’i nos escolheu.

O tempo nos ensina isso. O tempo nos cobrará isso. O que é do nkins’i é dele. O Senhor dos Caminhos nos mostra, se assim pedirmos, qual passos seguir, mas, nunca interfere na decisão que tomarmos, mesmo porque, ela é nossa e não dele.

Tata Kis’ange

Tambores e Corporalidades Negras

Na sexta-feira, 28/04/2023, nosso Tata Kis’ange proferiu a palestra “Tambores e Corporalidades Negras” no Centro Nacional de Africanidade e Resistência Afro-Brasileira. Em sua fala, contou sobre a história da Cabana Senhora da Glória, relembrando sua presença desde criança em nosso terreiro, o que fazia acompanhando Tateto Nepanji e Mameto Mutunji, fundador e fundadora da casa e seus pais biológicos, como sabemos.

Ogan confirmado há mais de 50 anos (se confirmou aos 17 anos de idade), Tata Kis’ange falou sobre como os tambores são o meio de comunicação com os inquices, convidando-os a se incorporarem e dançarem (e muito mais) junto a nós.

Em sua fala, Tata Kis’ange relembrou também da recém falecida Nengua Guanguaces’i, de nossa casa avó Bate Folha. Essa grande mãe foi saudada e homenageada com palmas.

Visita de Tata Kisange e Kota Neganji à casa irmã Filhos do Bate Folhinha

No último dia 27/10/2021, nosso Tata Kisange e nosso Kota Neganji fizeram uma visita à nossa casa irmã Filhos do Bate Folhinha, liderada pela querida Mameto Embanda, irmã de santo de Tateto Nepanji e de Tata Kisange.

Mameto Embanda é uma dessas figuras simpáticas que encontramos nos Candomblés e nas Umbandas. É filha de santo do último barco da saudosa Mameto Oloiá, que foi também quem iniciou as lideranças de nossa casa e plantou nosso ngunzo e nos orientou em nossos primeiros passos pelo Candomblé. Ademais, Embanda foi a primeira mãe de santo de Nenzinha, neta carnal de Mameto Oloiá e atual zeladora de nossa casa mãe, o Bate Folhinha de Salvador.

Já senhora de idade, Mameto Embanda recebeu muito afetuosamente os filhos do nosso terreiro, na cozinha da sua casa – locus sagrado de ensinamentos nos Candomblés, e de café também! Conversou sobre os velhos tempos e sobre a afrorreligiosidade umbandista e candomblecista de Belo Horizonte como um todo. Junto a Tata Kisange e Kota Neganji, reforçou os laços e os afetos de uma relação antiga e potente, que segue viva e forte ainda no presente.

Makuiu, Mameto Embanda!

O povo de santo e a sobrevivência em meio à pandemia

Em 28/09/2021, como parte das atividades da Semana Universitária de 2021, da Unversidade de Brasília, Tata Kisange e o Pai Ricardo – filho da Cabana Senhora da Glória e dirigente do terreiro de Umbanda e Associação da Resistência Cultural Afro-Brasileira Casa de Caridade pai Jacob do Oriente – serão os debatedores do evento Encontros Afrorreligiosos VI: o povo de santo e suas estratégias de sobrevivência em meio à pandemia.

A proposta da atividade é gerar um espaço de compartilhamento sobre como as religiões afro-brasileiras têm sido praticadas e vividas ao longo da pandemia do covid-19. Diante desse contexto, muitas casas de santo foram impossibilitadas de realizar suas atividades plenamente, exigindo adaptações. Nesse período, as casas têm articulado estratégias para a continuidade e preservação das suas atividades, sejam religiosas, ou de prestação de serviço à comunidade e gestão do seu espaço, bem como as possíveis atividades à distância. Na intenção de compreender melhor as experiências vivenciadas pelos povos de terreiro, o grupo de estudos Calundu, que desenvolve há anos atividades de pesquisa e extensão na temática, propõe diálogo entre representantes de comunidades afrorreligiosas, com o intuito de falar sobre como o cotidiano foi afetado pelas adaptações sanitárias que o contexto exige.

O debate será conduzido por nosso Tata Mubnzazi.

A questão da laicidade do Estado brasileiro e as religiões afro-brasileiras

Observação: Este texto é um artigo científico, publicado em 2018 no periódico acadêmico Revista Calundu, por Nilo Nogueira (Tata Kis’ange) e Guilherme Nogueira (Tata Mub’Nzazi). A temática é de grande interesse para as religiões afro-brasileiras e na luta contra o racismo religioso.
O texto completo pode ser acessado e baixado em formato .pdf neste link.
A Revista Calundu, com este e outros textos, pode ser acessada neste link.

Debatemos neste texto, a partir de pesquisa sócio-histórica e de um olhar desde dentro dos Calundus, a questão da laicidade do Estado brasileiro, problematizando algumas consequências da ausência de neutralidade do poder público sobre as comunidades de terreiro. Recuperamos como marco teórico os conceitos de secularismo e laicidade, movendo-nos, em seguida, a demonstrar como a ideia de Estado laico, historicamente, não se aplica ao Brasil. O tema, como debate, é campo de disputa não exclusivo no Brasil para a Sociologia da Religião, e torna-se mais complexo quando exposto junto a elementos que consubstanciam o cenário de racismo religioso brasileiro.

Seu Cangira deixa a Gira girar: A Cabula capixaba e seus vestígios em Minas Gerais

Observação: Este texto é um artigo científico, publicado em 2017 no periódico acadêmico Revista Calundu, por Guilherme Nogueira (Tata Mub’Nzazi) e Nilo Nogueira (Tata Kis’ange).
O texto completo pode ser acessado e baixado em formato .pdf neste link.
A Revista Calundu, com este e outros textos, pode ser acessada neste link.

Buscamos promover com o presente artigo um resgate da Cabula, religião afro-capixaba, antiga – a primeira a ganhar nome próprio a partir dos heterogêneos Calundus coloniais – e de culto aparentemente descontinuado no Brasil hodierno. Assim, a partir de bibliografia especializada e de informações coletadas com um religioso iniciado na Cabula – o pai de santo capixaba Tateto Nepanji, buscamos descrever os principais aspectos de seu culto e crença. Em seguida, apresentamos alguns vestígios de práticas cabulistas ainda presentes em rituais angoleiros praticados em Minas Gerais, onde pai Nepanji se radica. Os vestígios da Cabula apontam ainda para a força e continuidade de uma linguagem ritual angoleira, que sobrevive no Brasil desde os tempos dos primeiros Calundus coloniais.