No último dia 29 de junho de 2024, nosso Tatetu N’panji foi homenageado com a premiação de Mestre da Cultura Popular de Belo Horizonte. Em sua sexta edição, o prêmio é entregue pela prefeitura da cidade às pessoas que, conforme compreende o poder público, são/foram “responsáveis pela transmissão e perpetuação de saberes, celebrações e formas de expressão que compõem o patrimônio cultural” de Belo Horizonte.
O prêmio é um reconhecimento do poder público de algo que sabemos ser verdade desde sempre, que é a importância de nosso pai de santo para a afrorreligiosidade da nossa cidade. Pai N’panji chegou a BH em meados do século XX, por orientação da Preta Velha mãe Felisbina, com a incumbência de ser um líder espiritual, com terreiro aberto por aqui. Já era iniciado na Cabula desde 1938 e praticava a Umbanda no Rio de Janeiro desde 1944. Foi o primeiro filho do Candomblé Angola Moxicongo, raiz do terreiro Bate Folha de Salvador, iniciado em Minas Gerais. E segue desde suas iniciações como um guardião e transmissor desses conhecimentos, com respeito e valorização a seus ritos e segredos. Iniciou centenas de pessoas no Candomblé e outras tantas se desenvolveram na Umbanda na Cabana Senhora da Glória. Seu mestrado nos saberes afro-diaspóricos é longevo.
Se por um lado o prêmio e título de Mestre da Cultura Popular recebido por Tatetu N’panji é simbólico e um bonito reconhecimento de sua história de vida, é também, por outro lado, uma equiparação de seu conhecimento àquele de um mestre acadêmico. Com efeito, a noção por trás do título de Mestre da Cultura Popular surge na Universidade de Brasília, a partir dos trabalhos do antropólogo José Jorge de Carvalho. Este professor defende não haver hierarquia de saberes entre um professor universitário e um mestre popular. Pelo contrário, milita pela presença de mestres populares, como professores, nas salas de aulas das universidades brasileiras, levando a estudantes o conhecimento que é seu, outrora, em um passado não muito distante, tratado como objeto de pesquisa, apropriado por pesquisadores, em geral homens brancos, e lecionado na Academia como tal. Ainda que o crédito fosse dado por esses pesquisadores às pessoas das comunidades pesquisadas, não há nada mais autêntico e justo do que reconhecer que as/es/os guardiã/es dos saberes são, elas/eles próprias/es/os, as pessoas que com mais legitimidade podem falar de suas tradições.
Pai N’panji, no que tange à educação formal, apenas cursou a escola até a quarta série do ensino primário (hoje quinto ano do ensino fundamental). No entanto, é um mestre apto a lecionar em salas de aulas universitárias, participar de bancas de defesas de mestrado e contribuir à educação formal de novas gerações – as mesmas que há dezenas de anos contribui para a formação espiritual.
Humildemente, saudamos a grandiosidade de nosso Tatetu e elevamos nossas orações pelo reconhecimento e justiça a todas, todes e todos mestres populares que o Brasil (e o mundo!) têm. Que sejam reconhecidas/es/os e sigam contribuindo ao mundo, assim como nosso pai de santo.
Mazelele, Tatetu N’panji!































