Projetos sociais desenvolvidos nas Comunidades de Terreiro

Observação: Este texto é a transcrição de uma palestra proferida pelo então consultor da UNESCO junto à SEPPIR-PR na Assembléia Legislativa do Espírito Santo em 2007 – Nilo Sérgio Nogueira (Tata Kis’ange) – Kivonda desta casa.

Bom dia a todas e a todos,

Projetos sociais são sempre um tema em evidencia. Todavia, falar sobre os mesmos não é muito fácil, pois, a maioria dos cidadãos e cidadãs têm uma concepção própria do que se trata. Além disso, a literatura cientifica sobre projetos sociais também apresenta suas variações.

Face ao exposto, torna-se muito complexo elencar juízo de valor sobre a matéria, dada a vastidão de itens que os compõem e o que é pior, o incomensurável alcance de benefícios que os cercam.

Não existe uma maneira ou forma mais transparente de abordar o assunto sem nos voltarmos para o Terceiro Setor, que possui, hoje, elementos fundamentais e todo um embasamento teórico, calcado no dizer de vários pensadores, para desenvolver, na prática, todo tipo de inclusão, a partir das interações necessárias para o seu entendimento pela sociedade civil.

Tendo o exposto como ponto de partida, chegamos às Comunidades de Terreiro, que, não obstante o seu valor sócio-religioso, agrega um valor maior que é o encontro do “ser” com o “eu” interior, na busca permanente da felicidade e da paz de espírito no mundo terreno, alicerçados na base do aprendizado e conhecimentos transmitidos por nossos ancestrais, através da interpretação dos mistérios, ainda hoje não desvendados, mas que buscam esse encontro em nome de um Deus, amplamente falado, mas muito pouco sentido na plenitude do amor desejado e derramado.

Chegamos a um impasse de convicções.

De um lado, aquele que busca a ajuda e o lenitivo para sua dor, e, do outro lado, aquele que acredita ser o instrumento norteador e capaz de auxiliá-lo na cura dessa dor.

O que é a dor?

A fome é dor.

A falta de instrução é dor.

A perda de entes queridos e amados é dor.

A distância leva à dor.

A saudade gera a dor.

A dor nos distancia da inclusão social.

Diante de tudo, o religioso dirigente de uma determinada Comunidade de Terreiro tem uma responsabilidade ímpar.

Tal qual organizações do Terceiro Setor legalmente constituídas, a Comunidade de Terreiro aqui dirigido por esse religioso, chefe de Terreiro, Pai de santo, mãe de santo, babalorixá, yalorixá, e, me perdoem se deixei de citar alguma denominação, tem o mesmo papel.

Dentro do estado legal das instituições, existe a situação de “fato” e a situação de “Direito”.

A situação de Direito é aquela que de fato cumpre o que preceitua a lei.

A situação de fato é aquela que muitas vezes ocorre à margem dela.

Não queremos aqui entrar no sincretismo religioso e seus mistérios, nem tampouco confrontar os doutores da lei.

As duas searas adquiriram o conhecimento através do aprendizado ensinado, vivenciado, ou seja, passado de um para o outro. Cada qual ao seu tempo. Do ensinamento prático e da prática do ensino.

Caracterizamos aqui a necessidade de praticar e sempre aprimorar para não nos tornarmos obsoletos, e isso é um fato, bem como, temos necessidade de cumprir a lei, indispensável ao desempenho do que nos propusemos a fazer.

Está aí o ponto de partida para vários projetos sociais.

As Comunidades de Terreiro devem, em primeira instância, legalizar-se na sua constituição e filiação à entidade representativa estadual local e até federal, se for o caso, para então pleitearem qualquer tipo de ajuda que transcenda a sua capacidade de ação.

São vários os projetos sociais que podem ser desenvolvidos por essas comunidades, além dos serviços de caráter assistencialista para o combate à fome.

Organizar oficinas do saber, do conhecer e do fazer, é um caminho.

Promovam, além do amor, o trabalho.

Geração de emprego e renda. Artesanato a partir da cultura local.

Promovam, além da paz, a educação, principalmente a educação. Aí podemos citar como exemplo a alfabetização de adultos, alfabetização de crianças, aprendizado de um novo ofício.

Trabalhem, vias de fato e de direito, pela inclusão social.

O trabalho das instituições do Terceiro Setor, dentre as quais as comunidades de terreiro se incluem, objetiva, em última análise a transformação do ser humano, e toda transformação só se justifica se for para melhor.

Por sua vez o governo, enquanto primeiro setor tem os mesmos objetivos sociais do Terceiro Setor, diferenciando-se pela iniciativa. Também promove estudos e pesquisas, desenvolve serviços, visando o bem estar social.

Agradeço a oportunidade de aqui estar, compartilhar e aprender com todos vocês.

Conselhos aos médiuns

Você que é médium, que empresta seu aparelho para que através dele haja manifestação dos espíritos ou seja, os Pretos Velhos, Caboclos e outras entidades, que através dos conhecimentos adquiridos pelos mundos em que passaram, vêm ao mundo terrestre incorporar em uma matéria pecaminosa que somos nós, para fazer a caridade, deve-se cuidar através de bons pensamentos, das boas ações e das boas obras, pois o verdadeiro médium é aquele que sabe orar para ele e para os outros. Procure obedecer sem fanatismo às orientações recebidas de seus guias espirituais; procure respeitar seus irmãos dentro e fora das sessões; procure acatar as ordens de seus chefes (dirigentes) dos centros com amor e carinho, pois sabendo obedecer saberá dirigir; procure viver em paz com seus irmãos de corrente espiritual; procure aprender mais com isenção de vaidade, pois o médium vaidoso é comparado a um barco no oceano, sempre manobrado pelo vendaval, e nesse caso o vendaval que o manobrará, é a corrente inferior  que aproveitando de sua vaidade o dirige a seu bel prazer.

Há médiuns que se julgam superiores a seus irmãos, simplesmente porque recebem uma determinada entidade. Coitado! Não sabe ele que esta mediunidade é as vezes até coberta de certa maravilha que lhe foi dada para cumprimento a uma lei divina, ou seja, de uma oportunidade aos seres humanos de resgatarem seus débitos de vidas anteriores. Neste caso nada estará fazendo o médium incorporado para atender aos que dele necessitam. Lógico, que também não deve o médium servir de exploração daqueles que muitas vezes querem deixar seu problema exclusivamente para o espírito resolver, pois não sabem os consulentes que a maior parte dos médiuns não dispõem de recursos suficientes para se manterem e, desta forma, não podem ficar exclusivamente por conta dos conhecidos 7 roncós, ou sejam, daqueles que fazem a verdadeira via sacra de terreiro em terreiro e de médium em médium, tentando com isso as vezes dar expansão às suas baixas paixões. E necessário que também os consulentes tenham o esclarecimento preciso que não se deve exceder nos pedidos, pois cada qual recebe segundo o seu merecimento. Muitas vezes nossos amigos espirituais encontram dificuldades para nos atender pela nossa incompreensão e as vezes falta de fé. O que pedimos hoje queremos receber no dia seguinte, e isto é impossível pois há casos em que a aura da pessoa está tão sobrecarregada que é preciso tempo mesmo para as entidades espirituais serem limpas à altura de terem meios para se moverem.

É por isso que eu fico por entender, muitos cidadãos vaidosos, conforme já tive oportunidade de ouvir de alguém que, a partir de seu cargo de “Babalorixá”, julgava-se superior a um Preto Velho. Dizia essa pessoa ter poderes para entrar em um “Ronkó”(quarto reservado para a feitura de santo em terreiros de Candomblé), e o Preto Velho não podia fazer. Pobre coitado e vaidoso acima de tudo, quem pode discutir quantos “Ronkós” os Pretos Velhos já entraram antes de deixar sua matéria sob a terra: certamente que muitos. Outra observação: em quantos lugares pode ir o Preto Velho através de sua invisibilidade  e que nós não temos nem o direito de chegar perto dado às nossas falhas e orgulhos. Tenho ouvido também dirigentes de centros e homens até de muito conhecimento dizerem que já aprenderam muito e não necessitam mais aprender. Quem realmente pode se julgar tão sábio se a vida nos ensina que o aprendizado não para nunca? Não sabem eles que nós somos aqui passageiros com passagem de volta, que não caduca, pois teremos que regressar no dia certo à pátria de onde viemos. Se partíssemos deste princípio não haveria mais necessidade de aperfeiçoamento para “Catedráticos”, pois aprenderam o máximo e neste caso para que perder tempo com mais estudos?

Assim é a vida, cada qual com sua vaidade, não perder um só milímetro para seus irmãos , o que nos resta é seguir uma antiga frase, Kueto no Kueto (cada qual no seu).

Tateto Nepanji