Seu Cangira deixa a Gira girar: A Cabula capixaba e seus vestígios em Minas Gerais

Observação: Este texto é um artigo científico, publicado em 2017 no periódico acadêmico Revista Calundu, por Guilherme Nogueira (Tata Mub’Nzazi) e Nilo Nogueira (Tata Kis’ange).
O texto completo pode ser acessado e baixado em formato .pdf neste link.
A Revista Calundu, com este e outros textos, pode ser acessada neste link.

Buscamos promover com o presente artigo um resgate da Cabula, religião afro-capixaba, antiga – a primeira a ganhar nome próprio a partir dos heterogêneos Calundus coloniais – e de culto aparentemente descontinuado no Brasil hodierno. Assim, a partir de bibliografia especializada e de informações coletadas com um religioso iniciado na Cabula – o pai de santo capixaba Tateto Nepanji, buscamos descrever os principais aspectos de seu culto e crença. Em seguida, apresentamos alguns vestígios de práticas cabulistas ainda presentes em rituais angoleiros praticados em Minas Gerais, onde pai Nepanji se radica. Os vestígios da Cabula apontam ainda para a força e continuidade de uma linguagem ritual angoleira, que sobrevive no Brasil desde os tempos dos primeiros Calundus coloniais.

Tateto Nepanji e a celebração belorizontina a Iemanjá

No ano de 1965, há cinquenta e dois anos atrás, nossa mãe Iemanjá (que no Candomblé de nossa casa chamamos Kaiari) começou a ser homenageada nas margens da lagoa da Pampulha, em Belo Horizonte/MG. Àquela ocasião, uma procissão em carreata tinha inicio na Praça da Estação, centro da cidade, e, em cortejo ia até as proximidades da casa do baile, ponto turístico da cidade, onde entoavam-se cantigas em louvor à grande mãe. Nosso patriarca, um dos baluartes da Umbanda na cidade e ícone do Candomblé Moxicongo nas Minas Gerais, foi um dos idealizadores dessa homenagem e mais tarde, já membro conselheiro da então Federação Espírita Umbandista do Estado de Minas Gerais – entidade que também foi um dos fundadores – iniciou um processo de municipalização dessa festa religiosa. Na sua gestão como Presidente daquela entidade, iniciou conversas com o executivo municipal e após alguns anos, não só esse ato se tornou parte do calendário de eventos da cidade como também foi erguido um Portal em homenagem a Iemanjá, ficando o local, próximo a casa do baile, ponto fixo de louvor a nossa mãe. Uma imagem em tamanho real foi construída e colocada dentro da lagoa, na sua margem, para adoração dos adeptos no grande dia e também para visitação do publico em geral.

Com o passar dos anos e com o vandalismo de alguns, essa imagem precisou ser restaurada e um novo Portal foi construído. O evento nos dias atuais é realizado pelo poder público municipal e, neste ano, no dia 12 de dezembro, coincidindo com o aniversário de Belo Horizonte, foi entregue à população e aos adeptos e iniciados nas religiões de matrizes africanas, um local totalmente arrumado e respeitoso, onde os terreiros podem entoar suas cantigas rituais da grande mãe e todos podem fazer suas oferendas. Nosso tateto foi homenageado pelo conjunto da obra e nossa casa representada por alguns de seus filhos, que orgulhosamente lá estiveram. Fica aqui o registro e o respeito a todas e todos que durante anos elevaram o nome da Cabana Senhora da Glória – Nzo Kuna Nkos’i nessa grande festa.