Reconhecimento da Câmara Municipal de Belo Horizonte

A religiosidade afro-brasileira sempre acompanhou o povo negro deste país em sua luta por justiça social. E por reconhecer que estamos longe de alcançar este objetivo no Brasil, seguimos em luta. Em Belo Horizonte, a Câmara Municipal homenageia a Cabana Senhora da Glória – Nzo Kuna Nkos’i por sua militância negra no estado de Minas Gerais.

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Nossa contribuição à religiosidade afro-brasileira na Argentina

Na década de 1990 a Argentina – assim como o Brasil e boa parte da América Latina – passava por mudanças importantes no sentido do fortalecimento de sua recém reinaugurada democracia. Esse processo contou com a participação ativa da população daquele país, que juntamente à sua classe política buscava definir o modelo de nação que dominaria as décadas por vir. Nesse processo, também os grupos praticantes de religiões afro-brasileiras, particularmente religiosos umbandistas, organizaram-se como Sociedade Civil politicamente atuante e realizaram eventos visando ordenar suas práticas, publicizar sua religiosidade, quebrar estigmas amplamente presentes em um país de larga tradição europeizada e católica (sobre isso, cabe citar que ainda no presente a Constituição da República Argentina assegura o lugar do catolicismo como religião oficial do governo e defende a imigração de europeus). Tateto Nepanji foi, então, convidado como militante, autoridade e referência afro-religiosa, para auxiliar com seus conhecimentos à luta dos irmãos argentinos, tendo igualmente sido homenageado, em 1992, com o certificado que segue aqui reproduzido.

Certificado

Distribuição de cestas de alimentos

No ano de 2005, 301 terreiros de candomblé e casas de umbanda de oito estados da Federação, localizados em diversas cidades, foram contemplados com a ação de Distribuição de Cestas Alimentares. Essa ação, que é uma Política Pública que fazia parte do então Programa Fome Zero do Governo Federal, coordenada pelo Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome (MDS), objetivava auxiliar ao combate à fome e tornava a Comunidade de Terreiro em agente de Inclusão Social. Seu papel era o de ser um meio para a erradicação da pobreza e aumento da auto estima na região/comunidade do entorno do terreiro.

A partir de uma articulação da então Secretaria de Politicas de Promoção da Igualdade Racial da Presidência da República – SEPPIR/PR, MDS, alguns órgãos municipais e estaduais ligados à Promoção da Igualdade Racial, e também da Sociedade Civil organizada, foram feitas indicações de casas de Umbanda e Terreiros de Candomblé para esse recebimento. A Cabana Senhora da Glória – Nzo Kuna Nkos’i, foi uma das indicadas, e até os dias de hoje vem contribuindo com essa ação – hoje coordenada por outros programas do governo federal – junto à comunidade do entorno de sua sede, beneficiando várias famílias. São quarenta e oito cestas alimentares distribuídas mensalmente. Com essas é feito um rodizio de famílias, para que um maior número se beneficie da ação.

A Cabana Senhora da Gloria – Nzo Kuna Nkos’i entende ser necessário apoiar ações do poder público e auxiliar seus programas na condição de articuladora de Políticas Públicas, sem com isso manter vínculos partidários. A construção de uma sociedade mais justa e igualitária é o objetivo maior da luta do povo afrodescendente – este mesmo que tem a responsabilidade e incumbência de guardar os cultos a Nkinsis e Orixás no Brasil. A esta luta se soma, desde sempre, a nossa casa.

Projetos sociais desenvolvidos nas Comunidades de Terreiro

Observação: Este texto é a transcrição de uma palestra proferida pelo então consultor da UNESCO junto à SEPPIR-PR na Assembléia Legislativa do Espírito Santo em 2007 – Nilo Sérgio Nogueira (Tata Kis’ange) – Kivonda desta casa.

Bom dia a todas e a todos,

Projetos sociais são sempre um tema em evidencia. Todavia, falar sobre os mesmos não é muito fácil, pois, a maioria dos cidadãos e cidadãs têm uma concepção própria do que se trata. Além disso, a literatura cientifica sobre projetos sociais também apresenta suas variações.

Face ao exposto, torna-se muito complexo elencar juízo de valor sobre a matéria, dada a vastidão de itens que os compõem e o que é pior, o incomensurável alcance de benefícios que os cercam.

Não existe uma maneira ou forma mais transparente de abordar o assunto sem nos voltarmos para o Terceiro Setor, que possui, hoje, elementos fundamentais e todo um embasamento teórico, calcado no dizer de vários pensadores, para desenvolver, na prática, todo tipo de inclusão, a partir das interações necessárias para o seu entendimento pela sociedade civil.

Tendo o exposto como ponto de partida, chegamos às Comunidades de Terreiro, que, não obstante o seu valor sócio-religioso, agrega um valor maior que é o encontro do “ser” com o “eu” interior, na busca permanente da felicidade e da paz de espírito no mundo terreno, alicerçados na base do aprendizado e conhecimentos transmitidos por nossos ancestrais, através da interpretação dos mistérios, ainda hoje não desvendados, mas que buscam esse encontro em nome de um Deus, amplamente falado, mas muito pouco sentido na plenitude do amor desejado e derramado.

Chegamos a um impasse de convicções.

De um lado, aquele que busca a ajuda e o lenitivo para sua dor, e, do outro lado, aquele que acredita ser o instrumento norteador e capaz de auxiliá-lo na cura dessa dor.

O que é a dor?

A fome é dor.

A falta de instrução é dor.

A perda de entes queridos e amados é dor.

A distância leva à dor.

A saudade gera a dor.

A dor nos distancia da inclusão social.

Diante de tudo, o religioso dirigente de uma determinada Comunidade de Terreiro tem uma responsabilidade ímpar.

Tal qual organizações do Terceiro Setor legalmente constituídas, a Comunidade de Terreiro aqui dirigido por esse religioso, chefe de Terreiro, Pai de santo, mãe de santo, babalorixá, yalorixá, e, me perdoem se deixei de citar alguma denominação, tem o mesmo papel.

Dentro do estado legal das instituições, existe a situação de “fato” e a situação de “Direito”.

A situação de Direito é aquela que de fato cumpre o que preceitua a lei.

A situação de fato é aquela que muitas vezes ocorre à margem dela.

Não queremos aqui entrar no sincretismo religioso e seus mistérios, nem tampouco confrontar os doutores da lei.

As duas searas adquiriram o conhecimento através do aprendizado ensinado, vivenciado, ou seja, passado de um para o outro. Cada qual ao seu tempo. Do ensinamento prático e da prática do ensino.

Caracterizamos aqui a necessidade de praticar e sempre aprimorar para não nos tornarmos obsoletos, e isso é um fato, bem como, temos necessidade de cumprir a lei, indispensável ao desempenho do que nos propusemos a fazer.

Está aí o ponto de partida para vários projetos sociais.

As Comunidades de Terreiro devem, em primeira instância, legalizar-se na sua constituição e filiação à entidade representativa estadual local e até federal, se for o caso, para então pleitearem qualquer tipo de ajuda que transcenda a sua capacidade de ação.

São vários os projetos sociais que podem ser desenvolvidos por essas comunidades, além dos serviços de caráter assistencialista para o combate à fome.

Organizar oficinas do saber, do conhecer e do fazer, é um caminho.

Promovam, além do amor, o trabalho.

Geração de emprego e renda. Artesanato a partir da cultura local.

Promovam, além da paz, a educação, principalmente a educação. Aí podemos citar como exemplo a alfabetização de adultos, alfabetização de crianças, aprendizado de um novo ofício.

Trabalhem, vias de fato e de direito, pela inclusão social.

O trabalho das instituições do Terceiro Setor, dentre as quais as comunidades de terreiro se incluem, objetiva, em última análise a transformação do ser humano, e toda transformação só se justifica se for para melhor.

Por sua vez o governo, enquanto primeiro setor tem os mesmos objetivos sociais do Terceiro Setor, diferenciando-se pela iniciativa. Também promove estudos e pesquisas, desenvolve serviços, visando o bem estar social.

Agradeço a oportunidade de aqui estar, compartilhar e aprender com todos vocês.