O Senhor dos Caminhos e nossas decisões

Le mambuko Pambu N’jila.

Muitas vezes somos arguidos por consulentes, muzenzas e até mesmo adeptos de outros processos religiosos (cristãos, em maioria), sobre o “que” e o “porque” de determinada situação que estamos vivenciando custar a se resolver. Várias respostas podem ser dadas para esse questionamento e todas, sem exceção, nos levam a pensar sobre o “além” que rege nossa vida terrena.

Ledo engano.

Toda e qualquer situação que estejamos passando no plano terreno é fruto das nossas escolhas e exercício do livre arbítrio. Ninguém é responsável pelos e por nossos atos, a não ser nós mesmos. Nzambi, na sua infinita bondade e misericórdia, jamais nos desampara e muito menos nos abandona, mas respeita nossas decisões e escolhas, sempre nos orientando para o caminho do bem, até que estejamos prontos para o entendimento do “porque”.

Tateto Nepanji, zelador da nossa casa “Cabana Senhora da Glória – Nzo Kuna Nkos’i”, juntamente com Mameto Mutunji, mãe pequena dessa casa, e, meus pais pelos laços de sangue e família terrena, sempre me disseram: “faça o bem, mesmo que isso te custe o sono, porque a fatura chega para ser quitada em algum momento.” “Plantou e fez o bem ao semelhante, colherá o bem para sí mesmo.” Nessa linha, a recíproca também é verdadeira.

É bem mais fácil atribuirmos ao outro o revés de nossa vida do que olharmos nossas atitudes em relação ao outro ou a nós mesmos. O Candomblé, enquanto meio para o culto à ancestralidade e aos nkins’is, é, no meu juízo de entendimento, berço para a renovação de nossa energia, física e mental, mas jamais seria o próprio nkins’i ou muito menos o ancestral. Como local, é onde tomamos nosso banho de ervas sagradas e refletimos sobre nossa vida na fé ancestral que escolhemos, nos iniciamos ou somos confirmados, caso dos Tatas e das Makotas. A porta é única e ao cruzá-la, seja em uma ou outra casa, estamos conscientes que o nkins’i nos escolheu.

O tempo nos ensina isso. O tempo nos cobrará isso. O que é do nkins’i é dele. O Senhor dos Caminhos nos mostra, se assim pedirmos, qual passos seguir, mas, nunca interfere na decisão que tomarmos, mesmo porque, ela é nossa e não dele.

Tata Kis’ange

Conselho Municipal de Promoção da Igualdade Racial – Belo Horizonte

No sábado, 12/07/2025, a Cabana Senhora da Glória – Nzo Kuna Nkos’i participou, como candidata, da eleição para o  7º Mandato do Conselho Municipal de Promoção da Igualdade Racial – Belo Horizonte (COMPIR-BH), referente ao biênio 2025-2027. Com alegria comunicamos nossa eleição como entidade representante da sociedade civil, mais especificamente no seguimento de entidades religiosas, na vaga destinada à instuição representante do Candomblé.

Nossa eleição para o COMPIR-BH ratifica nossa histórica luta por direitos ao povo negro e afrorreligioso belorizontino, desde meados do século passado encampada por nosso Tateto N’panji e por nossa Mameto Mutunji. Nosso pai e nossa mãe fundador/a seguem vivo/a, o que não obsta o fato de sua luta já ter sido herdada por Tata Kis’ange e Tata Mub’Nzazi, que serão nossos representantes no Conselho, bem como por todas as filhas e todos os filhos da Cabana.

Fundada em 13 de maio de 1961, a Cabana Senhora da Glória – Nzo Kuna Nkos’i é o mais antigo terreiro afrorreligioso em funcionamento em Belo Horizonte. Iniciou suas atividades como centro umbandista e, em 1964, pelas mãos de Mameto Oloiá, do terreiro do Bate Folhinha, de Salvador, assentou os fundamentos do Candomblé, tornando-se a primeira casa da tradição Angola Moxicongo em Minas Gerais. Foi em reconhecimento a essa história que a Comissão Eleitoral do 7º Processo de Eleição dos(as) Representantes das Entidades não governamentais e da Sociedade Civil elegeu, por meio de votação democrática, nossa casa como integrante do COMPIR-BH.

A publicação no Diário Oficial do Município, que torna público e oficial o resultado da eleição, data de 18/07/2025 e pode ser acessada a partir do seguinte link: https://dom-web.pbh.gov.br/visualizacao/ato/465326

Mestre da Cultura Popular

No último dia 29 de junho de 2024, nosso Tatetu N’panji foi homenageado com a premiação de Mestre da Cultura Popular de Belo Horizonte. Em sua sexta edição, o prêmio é entregue pela prefeitura da cidade às pessoas que, conforme compreende o poder público, são/foram “responsáveis pela transmissão e perpetuação de saberes, celebrações e formas de expressão que compõem o patrimônio cultural” de Belo Horizonte.

O prêmio é um reconhecimento do poder público de algo que sabemos ser verdade desde sempre, que é a importância de nosso pai de santo para a afrorreligiosidade da nossa cidade. Pai N’panji chegou a BH em meados do século XX, por orientação da Preta Velha mãe Felisbina, com a incumbência de ser um líder espiritual, com terreiro aberto por aqui. Já era iniciado na Cabula desde 1938 e praticava a Umbanda no Rio de Janeiro desde 1944. Foi o primeiro filho do Candomblé Angola Moxicongo, raiz do terreiro Bate Folha de Salvador, iniciado em Minas Gerais. E segue desde suas iniciações como um guardião e transmissor desses conhecimentos, com respeito e valorização a seus ritos e segredos. Iniciou centenas de pessoas no Candomblé e outras tantas se desenvolveram na Umbanda na Cabana Senhora da Glória. Seu mestrado nos saberes afro-diaspóricos é longevo.

Se por um lado o prêmio e título de Mestre da Cultura Popular recebido por Tatetu N’panji é simbólico e um bonito reconhecimento de sua história de vida, é também, por outro lado, uma equiparação de seu conhecimento àquele de um mestre acadêmico. Com efeito, a noção por trás do título de Mestre da Cultura Popular surge na Universidade de Brasília, a partir dos trabalhos do antropólogo José Jorge de Carvalho. Este professor defende não haver hierarquia de saberes entre um professor universitário e um mestre popular. Pelo contrário, milita pela presença de mestres populares, como professores, nas salas de aulas das universidades brasileiras, levando a estudantes o conhecimento que é seu, outrora, em um passado não muito distante, tratado como objeto de pesquisa, apropriado por pesquisadores, em geral homens brancos, e lecionado na Academia como tal. Ainda que o crédito fosse dado por esses pesquisadores às pessoas das comunidades pesquisadas, não há nada mais autêntico e justo do que reconhecer que as/es/os guardiã/es dos saberes são, elas/eles próprias/es/os, as pessoas que com mais legitimidade podem falar de suas tradições.

Pai N’panji, no que tange à educação formal, apenas cursou a escola até a quarta série do ensino primário (hoje quinto ano do ensino fundamental). No entanto, é um mestre apto a lecionar em salas de aulas universitárias, participar de bancas de defesas de mestrado e contribuir à educação formal de novas gerações – as mesmas que há dezenas de anos contribui para a formação espiritual.

Humildemente, saudamos a grandiosidade de nosso Tatetu e elevamos nossas orações pelo reconhecimento e justiça a todas, todes e todos mestres populares que o Brasil (e o mundo!) têm. Que sejam reconhecidas/es/os e sigam contribuindo ao mundo, assim como nosso pai de santo.

Mazelele, Tatetu N’panji!

Luto pela passagem de Sindaloji

Nossa filha e irmã, Sindaloji, de um dos primeiros barcos de Tateto Nepanji, cumpriu o seu papel e missão na Terra e partiu para o plano celestial. Filha zelosa de Mameto Dangualunda, sempre honrou a Cabana Senhora da Glória – Nzo Kuna Nkos’i e nossa família. Sua lembrança sempre será presente. Em sua memória, a nossa casa guardará o devido luto candomblecista, seguindo às nossas tradições e à orientação dos mentores espirituais da casa.

Em respeito e consideração à família biológica da Sindaloji, compartilhamos o convite de sua missa católica de 7o dia.