As mulheres que gestaram e estruturaram a família da Cabana Senhora da Glória
- A mãe carnal de nosso pai: Regina Nogueira de Abreu
- A mãe fundadora e líder da nossa casa: Maria de Lourdes Nogueira
- A mãe que plantou nossa raiz candomblecista: Helena Dias do Nascimento (Mameto Oloiá)
- A mãe que alimentou nossa raiz candomblecista e a cabeça de nosso pai: Joana Maria da Conceição (Mameto Tulemburá)
A mãe carnal de nosso pai: Regina Nogueira de Abreu
Regina Nogueira de Abreu nasceu na cidade de Cataguases, Minas Gerais, em 08 de agosto de 1890, filha dos fazendeiros Ana Serafim de Abreu e Antônio Serafim de Abreu, portuguesa e português de Coimbra. Desde criança apresentava características marcantes de personalidade forte e determinação. De formação originalmente católica, fazia parte ainda criança de um grupo intitulado Filhas de Maria. Não se conformava com o papel que lhe era reservado pelo patriarcado de sua época, que lhe constrangia a ser uma moça caseira e “prendada”. Opondo-se, era bastante arredia e determinada nas suas opiniões.
Ainda muito cedo começou a apresentar manifestações de uma abertura espiritual diferente daquela imposta pela família. Adolescente, sentia-se mais à vontade junto às trabalhadoras e trabalhadores da fazenda da família, todas e todos negros. Mesmo sem entender os cantos que entoavam em seus momentos de descanso, permanecia ali, próxima a elas e eles, atenta em observação, até se recolher na casa da família. Essa ação a aproximava cada vez mais daquelas pessoas. Terminou por apaixonar-se por um deles, Antônio Mateus Nogueira, com quem mais tarde veio a se casar – o que lhe custou o banimento de sua família de origem.
Antônio era filho de Faustino Mateus Nogueira e Eponoina Nogueira. Os nomes lhes foram dados no brasil, mas ambos nasceram em Moçambique, na África. Chegaram ao Brasil escravizados, tendo sido submetidos ao trabalho forçado na fazenda dos Serafim de Abreu. Atenção ao fato de que Nogueira, o sobrenome dessa família escravizada, era o nome da madeira da qual era feito o pelourinho da fazenda em que eram cativos.
Casada com Antônio em 1912, Regina – agora Nogueira de Abreu – continuou morando na cidade mineira e teve ali cinco filhos e uma filha. Posteriormente, toda a família se mudou para Celina, distrito do município de Alegre, no estado do Espírito Santo, onde nasceu Nelson Mateus Nogueira, filho caçula de Regina e único capixaba da família. Naquela cidade, antes mesmo do nascimento de Nelson, ela ingressou em uma organização religiosa chamada Círculo Esotérico da Comunhão do Pensamento, que era um grupo de estudos sobre a espiritualidade e que lhe abriu os olhos para acompanhar o marido nos mistérios da Cabula.
A Cabula é uma religião afro-capixaba repleta de segredos de culto e, até onde se tem registro conhecido, extinta em sua forma oitocentista. Era praticada em Celina, ao que se foi dado conhecimento público, em torno de uma mesa, centrada à reunião das pessoas adeptas praticantes. No centro da mesa, colocava-se uma garrafa branca com água, que servia para fluidificar o ambiente.
As reuniões e mistérios do grupo cabuleiro de que Regina e seu marido faziam parte eram presididas por Joaquim Antônio da Silva, que se tornou mais tarde padrinho da iniciação cabuleira do garoto Nelson, quando este tinha oito anos de idade. Vale ressaltar que o nosso agora Pai Nepanji manifestou desde muito cedo sua mediunidade, iniciando na Cabula seu desenvolvimento afrorreligioso.
Quando Nelson completou doze anos de idade, foi-lhe dito por Mãe Felisbina de Angola, preta velha de Regina, que trabalhava a partir da Cabula, que os caminhos dele, pessoais e profissionais, não teriam avanços nas terras capixabas. Ele deveria se mudar à então capital da república, Rio de Janeiro, e se iniciar na Umbanda – o que veio a ocorrer alguns anos mais tarde, em 1946.
Os anos passando e a vida seguindo, em 1951 Regina escreve a Nelson, já casado e morando no Rio de Janeiro, uma carta com um recado de Mãe Felisbina de Angola – que havia se manifestado e ditado a mensagem no Centro das Três Pessoas da Santíssima Trindade. Em seu recado, Mãe Felisbina disse que “novos horizontes se abririam” para Nelson. Isso determinou a mudança do agora jovem adulto, e de sua esposa, para Belo Horizonte.
Durante todos os anos em que morou no Espírito Santo, Regina, juntamente com seu marido, continuou frequentando e trabalhando na Cabula. Regina seguiu ativa, também, no Círculo Esotérico da Comunhão do Pensamento. Em 1967, já idosos, o casal se muda para Belo Horizonte, levados por Nelson, para que ficassem mais próximos dele nessas fases de suas vidas. Já bastante idosa para a época, Regina veio a falecer no dia 27 de dezembro de 1969, de causas naturais, aos 79 anos de idade.
A mãe fundadora e líder da nossa casa: Maria de Lourdes Nogueira
Maria de Lourdes de Paula nasceu na cidade mineira de Sete Lagoas, em 11 de fevereiro de 1929. Aí viveu a infância e juventude, antes de ir trabalhar na então capital da república. Frequentava a igreja católica e participava de um grupo denominado As Pastorinhas de Nossa Senhora, por respeito à santa católica Nossa Senhora de Lourdes e por ter nascido no dia comemorativo a ela. Sua mãe se chamava Julieta de Paula e seu pai João Izabel de Paula. Ela e ele católicos, muito conhecidos na cidade mineira – embora João vivesse entre essa e outras paragens do trem em que era maquinista.
Julieta de Paula era benzedeira, ofício feminino e negro pelo qual era muito conceituada e respeitada. Como é a tradição, foi sua mãe, benzedeira na cidade de Inhaúma, Minas Gerais, que lhe transmitiu os conhecimentos de benzeção. Também seguindo à tradição de suas ancestrais, Julieta transmitiu os mesmos conhecimentos a Maria de Lourdes. Anos mais tarde, neta e netos se reuniriam no quintal de sua vó Maria, para serem por ela benzida e benzidos, mantendo viva e potente a força negra ancestral que essa tradição traz à sua família de sangue.
Única menina em uma família de seis crianças, aos 21 anos Maria de Lourdes foi sozinha para a cidade do Rio de Janeiro, para trabalhar. Esse fato era incomum para a época, em que mulheres jovens não saiam de casa para trabalhar e viver em outra cidade, muito menos em outro estado. Não obstante, Maria de Lourdes o fez e, no mesmo ano em que chegou ao Rio, conheceu a Nelson Mateus Nogueira. Com ele se casou um ano depois, no dia 03 de fevereiro de 1951, na igreja matriz de Santo Antônio, em Sete Lagoas. Com o casamento, adotou o nome de Maria de Lourdes Nogueira.
Após se casarem, Maria de Lourdes e Nelson voltaram para o Rio de Janeiro, onde trabalhavam e acreditavam estar seu futuro. Mas o caminho de ambos, informado pela ancestralidade, reservava outra paragem: Belo Horizonte. Assim, junto ao seu marido, se mudou à capital de Minas Gerais.
Inicialmente acolhidos pela rede de mulheres que apoiava a Maria de Lourdes – a ambos – foram morar, por um curto período, em casa de parentes, tias dela por parte de sua mãe. Tratava-se de uma casa evangélica, mas em um tempo em que essa diferença de religião – hoje abissal e marcada por intenso racismo religioso de evangélicos contra afrorreligiosos – não negava o abrigo e a solidariedade. Aí, então, viveram até que Nelson se estabelecesse profissionalmente e pudessem morar em sua própria casa.
A partir de setembro de 1951, já moradores de sua própria casa, Nelson tornou-se um integrante do Centro Espírita Jesus e Amor, passando a fazer parte de seu corpo mediúnico. Maria de Lourdes o acompanhava nas reuniões dos adeptos e, em uma dessas, ao receber um passe, teve uma breve manifestação de incorporação. Após isso, passou a pertencer ao grupo de desenvolvimento da casa, em que permaneceu até que sua primeira entidade se manifestou totalmente, tendo se identificado como o preto velho Pai Joaquim de Angola. A este sucedeu, posteriormente, o caboclo Mata Virgem e a menina de Angola Terezinha das Flores.
Quando a Cabana Senhora da Glória foi inaugurada, Maria de Lourdes tornou-se a mãe de sua tradição, acompanhando e ajudando o marido Nelson nas atividades da casa. Em respeito a isso, alguns anos mais tarde, quando da sua iniciação no Candomblé, recebeu a preparação para se tornar a Mãe Pequena da casa. É filha do nkis’i Kitembo, iniciada pela mãe de santo Moluvetu. Seu Nvunji se apresentou com o nome Cheirinho, e sempre deixou evidente que não seria o substituto de Terezinha das Flores – vibram em escalas diferentes.
Maria de Lourdes, com a dijina de Mutunji, sempre foi a mãe austera, enérgica, justa e generosa. Toda grandiosidade da Cabana Senhora da Glória – Nzo Kuna Nkos’i e sua representatividade na cidade de Belo Horizonte, no estado de Minas Gerais, e mesmo seu reconhecimento nacional, passam por essa senhora e por sua liderança em nossa casa. Embora não seja a zeladora de nosso terreiro, é tanto sua mãe de santo quanto Tateto Nepanji é o pai de santo. Por isso, recebe a deferência de Mameto – Mameto Mutunji.
Em 2006 foi citada no livro de Schuma Schumaher e Érico Vital Brazil, “Mulheres negras do Brasil”, como uma das notáveis representantes desse resistente grupo de senhoras, responsáveis pela preservação da herança negra deste país.
A mãe que plantou nossa raiz candomblecista: Helena Dias do Nascimento (Mameto Oloiá)
A relação de Mameto Oloiá com a Cabana Senhora da Glória teve início no ano de 1964. Foi então que nosso pai Nelson, instruído por nosso mentor espiritual, Pai Guiné de Aruanda, foi a Salvador, Bahia, conhecê-la e a seu filho carnal e Kivonda do terreiro do Bate Folhinha, Tata Mebandu.
Em Salvador, o terreiro do Bate Folhinha se situa em Campinas de Pirajá. Foi fundado em 1954 por Mameto Oloiá, por sua vez iniciada no Candomblé Moxicongo por Manoel Bernardino da Paixão, Tateto Ampumadeuza, o lendário pai Bernardino Bate Folha. Mameto Oloiá fez parte, em 1929, do primeiro barco de Tateto Ampumadeuza, no Candomblé do Bate Folha, há mais de 100 anos plantado na Mata Escura, também em Salvador. Era, assim, irmã de barco do igualmente proeminente pai de santo Lesenge – que veio fundar o terreiro Kupapa Nsaba, o Bate Folha do Rio de Janeiro. E irmã de santo mais velha de Bandanguame, sucessor de pai Bernardino na regência da casa mãe Bate Folha de Salvador.
Entre idas e vindas de pai Nelson entre Salvador e Belo Horizonte, no dia 13 de maio de 1966, Mameto Oloiá, acompanhada por outros representantes da comunidade do Bate Folhinha, assentaram, na capital mineira, os fundamentos candomblecistas da Cabana Senhora da Glória – então dada a Nkos’i, o nkis’i de cabeça de pai Nelson, com o que nossa casa assume seu segundo nome: Nzo Kuna Nkos’i. Isso se deu em nosso antigo endereço, no bairro Ermelinda. Este foi o início ritual da tradição Moxicongo em Minas Gerais, sempre com a aprovação e benção de Pai Guiné de Aruanda.
Sobre a relação de nosso mentor espiritual com a Mameto, contamos uma anedota. É incomum – e vetado em nossa tradição – que pretos velhos, pelo menos incorporados, participem de rituais candomblecistas. Estes são secretos, reservados apenas a pessoas iniciadas. Todavia, Mameto Oloiá mantinha longas conversas com Pai Guiné de Aruanda sobre os ritos a serem realizados na casa, sempre concertados entre ela e ele. Certa vez, em reconhecimento dos saberes de Pai Guiné, ela disse: “esse nego é feito”.
Entre 1964 e 1966, Mameto Oloiá ficava hospedada na casa de seu agora filho de santo e ndumbi Nelson, igualmente convivendo de perto com sua família biológica. Desse convívio nasceram amizade e os laços de família de santo, que se firmaram de maneira sincera. Em seu papel de mãe de santo, nutriu em Nelson carinho comparado ao que ele tinha por sua mãe biológica, ainda viva à época e 10 anos mais velha que Mameto Oloiá. Esta se tornou, portanto, uma importante integrante do núcleo familiar de Nelson.
Mameto Oloiá sempre foi de fácil trato e delicadeza, embora firme e reta nas tratativas que envolviam o Candomblé. Quando incorporada, Matamba, sua mãe de cabeça, dançava com uma leveza incrível. Mameto Oloiá incorporava também o Caboclo Tupinambá, altivo e elegante como um cacique guerreiro.
A Cabana Senhora da Glória já ostentava em 1966 um nome respeitado e querido em Belo Horizonte. Pai Nelson já era um conhecido umbandista e ativista político, tendo liderado, dentre outros, o início das celebrações públicas da Festa de Iemanjá, na Lagoa da Pampulha, em 15 de agosto, dia de Nossa Senhora da Glória, e da Festa dos Pretos Velhos, na praça 13 de Maio, no bairro da Graça. Não obstante, Mameto Oloiá trouxe consigo uma enorme parcela de contribuição à tradição da casa, ao gestar a chegada do Candomblé à nossa história. Iniciou nessa religião ao nosso pai Nelson – que recebeu a djina de Nepanji, e confirmou nosso Kivonda, Tata Kis’ange. Atuou junto ao Tateto Nepanji nos três primeiros barcos da casa, inclusive aquele de nossa mãe Mutunji, embora essa não seja filha de santo dela e nem dele. Faleceu no dia 06 de janeiro de 1975, deixando uma lacuna profunda de conhecimento e dor na comunidade candomblecista baiana e na mineira também.
A mãe que alimentou nossa raiz candomblecista e a cabeça de nosso pai: Joana Maria da Conceição (Mameto Tulemburá)
Com o falecimento de Mameto Oloiá, encostar, chorar e pedir auxílio à mãe tornou-se tarefa difícil para nosso Tateto Nepanji e toda a comunidade de nossa casa. Ademais, seu papel de mãe de santo de nosso pai precisava ser substituído – obrigações ainda eram devidas. Esse hiato foi então preenchido por Mameto Tulemburá.
Joana Maria da Conceição era o nome de registro civil desta senhora baiana, que vivia e morava no estado do Rio de Janeiro, em São João de Meriti, Baixada Fluminense. Iniciada no Candomblé por Ciriaco, o conhecido pai Ludyamungongo – zelador do terreiro de Candomblé de Angola Tumba Junsara e irmão de santo de pai Bernardino Bate Folha –, passou a oferecer, com dedicação e zelo, os cuidados e ensinamentos de que necessitava o nosso Tateto.
Sua participação na história religiosa de pai Nepanji e da Cabana Senhora da Glória – Nzo Kuna Nkos’i se estendeu por dezoito longos anos de coexistência encarnada e muito companheirismo. Em todo esse tempo, o nkis’i Nkos’i, dono da cabeça dessa nossa mãe, bem como seu Caboclo Rompe Núvem, encantado guerreiro, orientavam seus passos. Teve voz ativa na montagem de espaços importantes de nosso terreiro, inclusive assentamentos. Mesmo que não tenha plantado o ngunzo inicial da casa, plantou vários de seus fundamentos. A casa que temos hoje não seria a mesma sem o importante trabalho brindado por essa nossa mãe de santo.
Cabe aqui reconhecermos que, embora honremos e sustentemos a linhagem do Moxicongo em nossa casa, herdada de nossa casa mãe Bate Folhinha e, por conseguinte, de nossa casa avó Bate Folha, aprendemos enormemente também com a tradição herdada do Tumba Junsara. Especificidades à parte, cabe igualmente reconhecermos que toda essa raiz angoleira passa pela grande mãe de nossa nação, a Mameto Maria Neném, que iniciou ao pai Ciriaco – e a seu irmão e cofundador do terreiro do Tumba Junsara, pai Kambambe – e deu obrigações ao pai Bernardino Bate Folha. Ao lembrarmos de nossa querida Mameto Tulemburá e de tudo o que ela aportou à nossa casa, respeitosamente damos um passo a mais, ao saudar em sua memória a toda essa nossa ancestralidade angoleira.
Carismática e sábia, mãe Joana, como também era muitas vezes chamada, ficava em Belo Horizonte, hospedada na Cabana Senhora da Glória – Nzo Kuna Nkos’i, entre três e quatro meses por ano. Considerava nossa casa como sua segunda morada, dividindo, portanto, o seu tempo entre seu terreiro no Rio de Janeiro e o nosso – também seu – Candomblé.
Dessa forma, Mameto Tulemburá esteve presente em quase todas as festivas de iniciação de filhas e filhos de santo de Tateto Nepanji até o ano de 1993, quando veio a falecer. Acompanhou e participou com seu trabalho, inclusive, na mudança de nossa casa do bairro Ermelinda para o seu atual endereço, no bairro Sarandi. Foi a responsável por dar a obrigação de 21 anos de nosso Tateto e de nosso Kivonda, que também a ela entregou sua cabeça, após Mameto Oloiá. Ao fazer sua passagem, mãe Tulemburá deixou um vácuo profundo para o Candomblé, em especial o da Cabana Senhora da Glória – Nzo Kuna Nkos’i.



